As Confissões de Aleister Crowley: mudanças entre as edições

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O ESPÍRITO DA SOLIDÃO<br />
Uma Autohagiografia<br />  
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Posteriormente re-anticristado <br />  
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Edição das 11h11min de 18 de fevereiro de 2024

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AS CONFISSÕES DE ALEISTER CROWLEY

O ESPÍRITO DA SOLIDÃO
Uma Autohagiografia
Posteriormente re-anticristado
AS CONFISSÕES DE ALEISTER CROWLEY

PREÂMBULO

Pareceu-me que meu primeiro dever era provar ao mundo que eu não estava ensinando Magia por dinheiro. Prometi a mim mesmo publicar sempre meus livros com um prejuízo real do custo de produção - nunca aceitar um centavo por qualquer tipo de instrução, dando conselho, ou qualquer outro serviço cujo desempenho dependesse das minhas realizações mágicas. Eu me considerava como tendo sacrificado minha carreira e minha fortuna pela iniciação, e que a recompensa era tão grandiosa que fazia o preço parecer insignificante, exceto que, como a oferta da viúva, isso era tudo o que eu tinha. Eu era, portanto, o homem mais rico do mundo, e o mínimo que eu podia fazer era oferecer o inestimável tesouro aos meus semelhantes necessitados. Também fiz questão de honra absoluta nunca me comprometer com qualquer afirmação que não pudesse provar da mesma forma que um químico pode provar a lei das proporções recíprocas. Não só teria cuidado para evitar enganar as pessoas, mas também faria tudo ao meu alcance para evitar que elas se enganassem a si mesmas. Isso significava declarar guerra aos espiritualistas e até aos teosofistas, embora concordasse com muitos dos ensinamentos de Blavatsky, tão intransigentemente quanto eu havia feito com o Cristianismo.

PARTE I - RUMO À ORDEM DA AURORA DOURADA

PRELÚDIO

"FAZE O QUE TU QUERES, há de ser toda a Lei." Não apenas para esta auto-hagiografia ― como ele brinca ao chamá-la — de Aleister Crowley, mas para toda forma de biografia, biologia, e até mesmo química, essas palavras são fundamentais.

"Cada homem e cada mulher é uma estrela." O que podemos saber sobre uma estrela? Pelo telescópio, um vislumbre tênue do seu valor óptico. Pelo espectroscópio, uma indicação da sua composição. Pelo telescópio, e por nossa matemática, sua trajetória. Neste último aspecto, podemos legitimamente inferir do conhecido para o desconhecido: pela nossa observação da breve curva visível, podemos estimar de onde veio e para onde vai. A experiência valida nossas suposições.

Considerações deste tipo são essenciais para qualquer tentativa séria de biografia. Uma criança não é—como nossos avós pensavam—um capricho arbitrário lançado ao mundo por uma divindade cínica, para ser salva ou condenada conforme a predestinação ou o livre-arbítrio. Sabemos agora que "aquilo que é, simplesmente é", como o velho eremita de Praga, que nunca viu pena e tinta, disse muito espirituosamente a uma sobrinha do Rei Gorboduc.

Nada pode ser criado ou destruído; portanto, a "vida" de qualquer indivíduo deve ser vista como aquela breve curva visível, e o objetivo de escrevê-la é deduzir, por meio de medidas apropriadas, o restante de sua trajetória.

O autor de qualquer biografia deve perguntar, no sentido mais profundo, quem ele é? Esta pergunta, "Quem és tu?", é a primeira que é feita a qualquer candidato à iniciação. Também é a última. O que a pessoa é, fez e sofreu são apenas pistas para esse grande enigma. Portanto, as memórias mais antigas de qualquer auto-hagiógrafo são imensamente valiosas; sua incoerência é um guia infalível, pois, como Freud demonstrou, lembramos (geralmente) o que desejamos lembrar e esquecemos o que é doloroso. Há, assim, um grande perigo de engano quanto aos "fatos" do caso, mas nossas memórias indicam com incrível precisão qual é a nossa verdadeira vontade, e, como mencionado anteriormente, é essa verdadeira vontade que revela a natureza do nosso próprio movimento.

Ao escrever a vida de um homem comum, existe esta dificuldade fundamental: o desempenho é fútil e sem sentido, mesmo do ponto de vista de um filósofo prosaico; ou seja, falta qualquer unidade artística. No caso de Aleister Crowley, nenhum tal dilema apareceu em seu caminho; pois ele próprio considera sua carreira como uma composição definitivamente dramática. Ela alcança um clímax nos dias 8, 9 e 10 de abril de 1904. O menor incidente na história de todo o universo lhe parece como uma preparação para aquele evento; e sua vida subsequente é meramente o resultado dessa crise.

Por outro lado, contudo, existe a circunstância de que seu tempo foi dividido de três formas bem distintas: o Caminho Secreto do Iniciado, o Caminho da Poesia e da Filosofia, e o Vasto Mar do Romance e da Aventura. De fato, não é raro encontrar os dois primeiros, ou os dois últimos, elementos na essência de um homem: Byron é um exemplo do primeiro, e Poe, do segundo. Mas é realmente raro que uma vida tão intensa e aventuresca esteja associada a uma devoção tão profunda às artes do quietismo; e neste caso específico, as três carreiras são tão completas que a posteridade pode ser perdoada por presumir que não apenas um, mas vários indivíduos foram combinados numa lenda, ou até mesmo por dar um passo adiante e dizer: Este Aleister Crowley não era um homem, ou sequer um conjunto de homens; ele é claramente um mito solar. Nem ele mesmo poderia negar tão veementemente tal afirmação; pois, antes mesmo de chegar ao auge da vida, seu nome já estava ligado a fábulas tão fantásticas quanto aquelas que lançam dúvidas sobre a historicidade de Buda. Deve ser a verdadeira vontade deste livro esclarecer a verdade sobre o homem. No entanto, aqui novamente, há um obstáculo no caminho. A verdade deve ser falsa, a menos que seja a verdade completa; e a verdade completa é parcialmente inacessível, em parte incompreensível, em parte inacreditável e parcialmente imprópria para publicação — isto é, em qualquer país onde a verdade por si só é reconhecida como um explosivo perigoso.

Outra dificuldade surge pela natureza da mente, e especialmente da memória, do próprio homem. Enfrentaremos incidentes que mostram que ele está incerto sobre circunstâncias claramente lembradas, sejam elas da “vida real” ou sonhos, e até mesmo que ele tenha esquecido completamente coisas que nenhum homem normal poderia esquecer. Além disso, ele superou completamente a ilusão do tempo (no sentido usado por filósofos, de Lao Tzu e Plotino a Kant e Whitehead), pois muitas vezes acha impossível desembaraçar os eventos como uma sequência. Ele relacionou fenômenos de forma tão completa a um único padrão que eles perderam seu significado individual, assim como quando se compreende a palavra “gato”, as letras g-a-t-o perdem seu valor próprio e tornam-se meros elementos arbitrários de uma ideia. Ademais, ao revisar a vida de alguém em perspectiva, a sequência astronômica deixa de ser significativa. Os eventos reorganizam-se em uma ordem que transcende tempo e espaço, assim como em uma pintura não se pode distinguir em qual ponto da tela o artista começou a pintar. Ah! É impossível tornar este um livro satisfatório; mas isso proporciona o estímulo necessário; vale a pena fazê-lo, e por Styx[1]! Será feito.

SERIA absurdo pedir desculpas pela forma deste livro. Desculpas são sempre desagradáveis. Não acredito nem por um momento que teria sido melhor se tivesse sido escrito sob circunstâncias mais favoráveis. Menciono apenas como um ponto de interesse geral as dificuldades reais enfrentadas durante a composição.

Desde o início, minha situação era instável. Eu estava praticamente sem recursos financeiros, fui traído de forma descarada e sem sentido por quase todos com quem mantinha relações comerciais, e não tinha acesso a nenhuma das comodidades normalmente consideradas essenciais para quem empreende tais tarefas. Para piorar, surgiu um súbito turbilhão de traição desenfreada e perseguição insensata, tão absurdo, mas tão intenso, que chegou a desestabilizar até mesmo pessoas bastante racionais. Ignorei isso e prossegui, mas quase imediatamente eu e um dos meus principais colaboradores adoecemos gravemente. Eu continuei. Meu colaborador faleceu[2]. Eu continuei. Sua morte foi o estopim para uma nova onda de falsidades venenosas. Eu continuei.

Continua...


[1]

  1. N. T.: Estige— ninfa ou rio infernal dedicado a ela no Tártaro, inundo dos mortos
  2. Raoul Loveday, que faleceu na Abadia de Thelema após beber água de um córrego contaminado. Consulte a parte 6 deste trabalho para mais detalhes.