Sword of Wisdom - Ithell Colquhoun: mudanças entre as edições

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Edição das 22h35min de 29 de julho de 2023




Old-books-feat.jpg Este conteúdo pertence à Projeto de Livros Raros, que visa disponibilizar obras de relevância à Tradição Esotérica Ocidental. Quer sugerir algo? Não hesite daemonos@ocultura.org.br

Final

ITHELL COLQUHOUN
Espada da Sabedoria
MacGregor Mathers
e “A Aurora Dourada”

'...les deux mains appuyées
Sur Pépée de la sagesse
En intimité avec les astres et les pierres
Amoureux des cavernes de Vhomtne
Du ventre de Vunivers?
Du Haut de Montserrat'
(Georges Bataille et André Masson)

...ambas as mãos apoiadas
Na espada da sabedoria
Em intimidade com as estrelas e as pedras
Amante das cavernas do homem
Do ventre do universo?
Do alto de Montserrat
(Georges Bataille e André Masson)




Samuel Liddell MacGregor Mathers.png
Mathers em Traje Mágico, pintado por sua esposa por volta de 1895. (Assinado por Μ. MacGregor Mathers no canto inferior direito.)



Capa.png




UM IMPORTANTE NOVO LIVRO PARA TODOS

OS ESTUDANTES SÉRIOS DE
LITERATURA OCULTA, COM
NOVAS PERSPECTIVAS SOBRE
A ORDEM HERMÉTICA DA
AURORA DOURADA





DEDICATÓRIA
Em memória da
ORDEM HERMÉTICA DA AURORA DOURADA
(Fundada em 1888)
Die Goldene Dämmerung
L'Aube Dorée
Aurora
'E 'Eos Chryse
Chabrat Zerech Aur Bocher



Primeira Edição Americana 1975
Direitos autorais © 1975 por Ithell Colquhoun





SBN: 899-11534-8
Número do Cartão de Catálogo da Biblioteca do Congresso: 75-21919


Primeira Edição Brasileira 2023
TRADUZIDO NO BRASIL






A AUTORA
Por Alexandre Nascimento, tradutor

Ithell Colquhoun (1906 — 1988) foi uma artista e escritora britânica conhecida principalmente por seu trabalho como pintora surrealista. Além disso, ela também é lembrada por suas contribuições para a literatura ocultista. Colquhoun nasceu em Shillong, na Índia, mas mudou-se para o Reino Unido ainda jovem. Ela estudou na Slade School of Fine Art, em Londres, e durante a década de 1930 tornou-se associada ao movimento surrealista. Sua arte é caracterizada por imagens oníricas e simbolismo oculto, muitas vezes explorando temas relacionados à mitologia, ao misticismo e à magia. Paralelamente ao seu trabalho como artista, Colquhoun também escreveu extensivamente sobre o ocultismo. Ela tinha um profundo interesse em magia cerimonial, alquimia e a Cabala, e era membro de várias ordens ocultas, incluindo a Ordem Hermética da Aurora Dourada e a O.T.O. (Ordo Templi Orientis). Ela escreveu vários livros sobre esses tópicos, incluindo "Sword of Wisdom: MacGregor Mathers and the Golden Dawn". Colquhoun é lembrada hoje tanto por sua arte quanto por suas contribuições para a literatura ocultista. Seu trabalho combina um senso agudo de composição e técnica com um profundo interesse pelo misticismo e o esotérico, tornando-a uma figura única no mundo da arte surrealista e na comunidade ocultista.

Ithell young.png
Ithell woman.png
Ithell antient.png

AGRADECIMENTOS

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Gostaria de agradecer com muitos agradecimentos a todos que me forneceram material para este livro, particularmente: Dr. Oliver Edwards, por me mostrar cartas de Miss Horniman e Sra. Rand; e por informações sobre Max Dauthendey.

Dr. Ian Fletcher e a Biblioteca da Faculdade de Letras e Ciências Sociais (Departamento de Língua e Literatura Inglesa) na Universidade de Reading para informações sobre Florence Farr.

Dr. G. M. Harper da Universidade Estadual da Flórida, EUA, por cartas dos MacGregor Mathers para W. B. Yeats.

Dr. Francis I. Regardie, por muitas informações e incentivo.

Senador Michael B. Yeats e Miss Anne Yeats por me permitir usar material inédito de W. B. Yeats da Biblioteca Nacional da Irlanda; e por permissão para citar 27 linhas de A Vision, 8 linhas de The Double Vision of Michael Robartes, 2 linhas de Hound Voice, 6 linhas de All Souls' Night, 6 linhas de His Memories e 3 linhas de Sailing to Byzantium, todas de The Collected Poems of W. B. Yeats, cortesia de Macmillan de Londres e Basingstoke e Macmillan Co. do Canadá. Também para citar 29 palavras de A Letter from W. B. Yeats to John O'Leary, das cartas de W.B. Yeats, cortesia de Hart-Davis, MacGibbon Ltd.

Sou grata a Antony Borrow (notas sobre Charles Williams), parentes da falecida Sra. Boyd que não desejam ser mais identificados, G. H. Brook e G. Rhodes (The Box on the Beach), Miss Dorothy Emerson (Secretária Geral da Sociedade Teosófica na Irlanda), Tom Greeves e R. S. Colquhoun (Bedford Park), Paul Henderson (diagrama do horóscopo de MacGregor Mathers), as obras de Dr. Serge Hutin sobre alquimia, Gerald Yorke por conselhos ao longo dos anos, vários amigos Maçônicos e Frater X, que prefere permanecer sub Rosa.

Também à equipe das Bibliotecas Públicas de Bournemouth, Penzance e Poole; e ao Warburg Institute, Londres.



CONTEÚDO

Agradecimentos 5
Sobre o Retrato de Deo Duce Comite Ferro (Poema de Ithell Colquhoun, 1970) 12
PARTE I. AUTOBIOGRAFIA
Capítulo I. Ligações 15
II. Chefes (1)

23

III. Chefes (2) 32
IV. Imagens 40
PARTE II. BIOGRAFIA
Capítulo V. Vestígios 49
VI. Uma Espada: Fato (1) 60
VII. Uma Espada: Fato (2) 73
VIII. Uma Espada: Fato (3) 83
IX. Uma Espada: Fato (4) 96
X. Uma Espada: Ficção 108
PARTE III. ORGANISMO
Capítulo XI. Raízes 117
XII. Crescimento Regular 131
XIII. Legítima Prole: 144
Allan Bennett; Dr. Edward W. Berridge; Dr. John W. Brodie-Innes; Mabel Collins; Florence Farr; Maud Gonne; Annie E. F. Horniman; Sir Gerald F. Kelly; William Sharp; Alfred P. Sinnett; Dr. William Wynn Westcott; Dr. William R. Woodman; William B. Yeats
Capítulo XIV. Disseminação Dissidente:
De Ahathoor 179
XV. Disseminação Dissidente:
De Isis-Urania (1) 190
XVI. Disseminação Dissidente:
De Ísis-Urania (2) 199
XVII. Desvios Sinistros: 209
Algernon Blackwood; Aleister Crowley; Dr. Robert W. Felkin; Violet Μ. Firth; William T. Horton; Arthur Machen; Edith Nesbit; Evelyn Underhill; Arthur E. Waite; Charles W. S. Williams
PARTE IV. LEGADO
Capítulo XVIII. Magia 243
XIX. Enochiana 254
XX. Alquimia 269
XXI. Tantra 285
Elegia à Ordem Hermética da Aurora Dourada (Fundada em 1888) (Poema de Ithell Colquhoun, 1955) 298
Índice 301




Projeto Livros Não Nascidos


Este projeto representa uma obra de amor e dedicação que trazer à materialidade livros importantes não nascidos. Todos os textos reunidos até agora, bem como todos os futuras têm como objetivo expor os estudantes interessados às informações ocultistas. Lançamentos futuros incluirão submissões de usuários como VOCÊ. Para alguns de nós, chegou a hora de mobilizar. Se você tem interesse em auxiliar neste processo — todos nós temos forças para trazer à mesa. Não hesite em enviar um e-mail para daemonos@ocultura.org.br




LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Mathers em trajes mágicos Frontispício
Moina MacGregor Mathers frente à página 32
Local de nascimento de Mathers 33
A igreja onde ele foi batizado 33
Vicariato do Rev. W. A. Ayton 64
A casa de Mathers e sua mãe no início dos anos 1880 64
Rob Roy MacGregor 65
Horus — colagem de Moina 96
Néftis — colagem de Moina 97
Aleister Crowley e seu filho, Gair, 1938 128
Aleister Crowley com Lady Harris, 1941 128
Florence Farr na estreia de Uma Idílio Siciliano 129
Annie Horniman 129
Página de A Kabbalah Revelada 160
Cabeçalho de uma palestra por E. J. L. Garstin 161
Diagrama de Divindades Celtas 192
Diagrama da Árvore da Vida 193
Duas inscrições de Aleister Crowley 241
Os Ritos de Elêusis 243
Certidões de Nascimento e Morte de Mathers 276
Rei James IV da Escócia 277



PARTE I

AUTOBIOGRAFIA

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NO RETRATO DE
DEO DUCE COMITE FERRO
Você vem até mim no solstício de inverno, você vem
Como um barco que atinge o nadir da noite e vira
O leme para o leste, do sul. Por cinquenta anos
Você jaz em um caixão pintado, uma cripta desordenada

Eu levanto a tampa, desenrolo um envoltório de seda
E não encontro um esqueleto humano, mas uma espada
Um cadáver transmutado me lega este sinal
Com granada cintilando sombriamente na cruz

Brumas de nácar nublam o céu egípcio
E logo um escaravelho escuro voará para cima
Como um falcão, o sol escondido dourando suas asas
E, senhor dos dois horizontes, retomará o meio-dia.



CAPITULO UM

[p 15]

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Ligações

(Links) Eu era uma estudante sentada em um assento de banheiro e me inclinava para frente para ver as profundezas de uma cesta de vime forrada com jornais. As páginas impressas em letra miúda continham um artigo escrCAPÍTULO DOIS Chefes ito por uma jovem mulher que visitava uma Abadia na Sicília e descrevia as estranhas ocorrências lá. O diretor do local era alguém a quem ela chamava de "O Místico", mas não o identificava de outra forma; e sua Abadia estava longe de ser um estabelecimento monástico comum. Fiquei ali até ter lido as duas ou três grandes páginas, apesar do imperioso barulho na porta.

Quando saí do banheiro, minha mãe tomou meu lugar lá, e ela também deve ter olhado para dentro da cesta de roupas sujas, pois ela emergiu mais tarde em uma fúria. Como ousei passar tanto tempo lendo lixo? Qual era o uso de uma boa educação se eu desperdiçava meus talentos em preocupação com o mais baixo dos baixos? E ocupando o banheiro por vinte minutos enquanto outras pessoas esperavam! Ela continuou a falar, embora sem realmente mencionar a história do jornal, muito menos explicar o que ela achava repreensível nela. Ela se sentia culpada por ter lido e talvez gostado dela mesma? Eu sabia melhor do que perguntar, mas minha opinião sobre sua inteligência caiu para um novo mínimo.

O que provocou todo esse disparate? O revelador relato de Betty May da agora famosa Abadia de Thelema, nada menos. O jornal deve ter sido o Sunday Express em alguma data de fevereiro ou março de 1923; Eu entendi pelo que li que o artigo era um de uma série e desde então ouvi dizer que havia três no total. Eu suponho que o nome de Aleister Crowley figurava em alguma manchete pois eu nunca esqueci isso, embora naquela época eu não soubesse de sua conexão anterior com a Ordem da Aurora Dourada, nem mesmo da existência da Ordem em si.

[p 16]

Tornei-me consciente disso um ou dois anos depois, quando descobri pela primeira vez as obras em prosa de W. B. Yeats. Em seus primeiros ensaios, alguns dos quais foram publicados como Ideias de Bem e Mal, encontrei frases intrigantes como 'Quando estive com alguns Hermetistas' ou 'com alguns Martinistas'; também fascinantes notas de rodapé para poemas e peças, que tanto ocultavam quanto revelavam uma tradição de conhecimento oculto — e acredito que foi em uma dessas que me deparei pela primeira vez com o nome da Ordem. Tentei encontrar mais detalhes, mas sem sucesso. Enquanto isso, estudei todos os textos alquímicos que pude encontrar; meu primeiro trabalho publicado, A Prosa da Alquimia, apareceu na revista de G. R. S. Mead, The Quest, enquanto eu ainda estava na escola.

Não foi até eu morar em Londres como estudante na Slade School que fiz algum progresso. Através da revista do Sr. Mead, entrei em contato com a Sociedade Quest, da qual, quando me juntei, era o membro mais jovem — movimentos esotéricos não eram então moda entre os jovens. O Sr. Mead era o Presidente e geralmente presidia as reuniões; em aparência, ele era uma versão florida da estátua de Paul Verlaine nos Jardins de Luxemburgo. Os Questers se reuniam em dois grandes estúdios na Clareville Grove, localizada entre as estações de Gloucester Road e South Kensington. Esta toca de estúdios foi muito revirada durante o bombardeio de Londres e desde então foi substituída por um bloco de apartamentos. Naquela época, um dos estúdios da Sociedade servia como sala de conferências, o outro como uma biblioteca de empréstimo de livros ocultos. O aluguel era subsidiado pela Sra. Charlotte Shaw (esposa de G.B.S.), que era membro, embora visitante pouco frequente. Seu marido, eu entendi, não estava interessado.

Comecei a pegar dicas obscuras sobre as atividades de certos membros (não especificados), dos quais outros suspeitavam. Os rumores giravam em torno de um terceiro estúdio, situado além do que era usado como biblioteca, e seu principal disseminador era a bibliotecária, uma senhorita Worthington. Havia sussurros sobre magia negra, uma frase ainda mais emotiva naquela época do que é hoje. Os membros não eram todos do calibre da Srta. Worthington, entretanto; eles incluíam Dr. Moses Gaster, o eminente hebraísta, cuja filha mais nova era minha contemporânea na Slade; Hugh Schonfield, cujas preocupações acadêmicas não impediram que ele fundasse mais tarde A República Mondcivitan; Dr. W. B. Crow, Grão-Mestre da Ordem da Santa Sabedoria e autor e palestrante sobre temas tradicionais;

[p 17]

Margaret L. Woods, a poetisa eduardiana; Gerard Heym, o estudioso e bibliófilo e Edward Langford Garstin, que era secretário da Sociedade, seus tratados alquímicos, Teurgia e O Fogo Secreto, ainda não publicados.

Desde criança, eu tinha ouvido falar de um primo distante chamado Eddie Garstin, então uma noite eu reuni a coragem para perguntar a ele sobre uma possível parentesco. Descobrimos assim cada um uma relação até então desconhecida e, apesar de uma grande diferença de idade, nos tornamos bons amigos. Edward então dividia um apartamento com sua mãe viúva na 53, Bassett Road, W.10.; O templo dissidente do Dr. Felkin estava localizado em algum lugar nesta rua, talvez nesta mesma casa, e persistiu até o início dos anos 1920 em diferentes endereços — embora eu não soubesse de nada disso na época.

Edward foi muito gentil em me emprestar livros e devo o meu primeiro conhecimento Qabalístico à sua elucidação de The Kabbalàh Unveiled, de S. L. MacGregor Mathers. Eu sempre achei sua conversa interessante, pontuada como era pelos comentários não muito inteligentes de sua mãe ao fundo. Sua sala de estar, mobiliada com peças de dias mais prósperos e retratos de família em molduras de ouro, era abafada e mal aquecida. Edward não tinha um emprego regular e dedicava suas energias ao ocultismo — um trabalho que é "nem pago nem elogiado", como Yeats nos lembra. Divorciado de sua primeira esposa, ele se viu responsável, financeira e psicologicamente, por sua mãe. Quando estava saindo de sua casa em uma ocasião, ele fez um comentário que depois lembrei com curiosidade:

"Tenho uma velha amiga em Chelsea: gostaria que você a conhecesse algum dia. Gosto muito dela e ela se interessa muito pelos nossos assuntos." (Falávamos de assuntos ocultos como 'nossos assuntos' para que nos entendêssemos, enquanto deixávamos os profanos — caso houvesse algum por perto — sem iluminação.) Claro, eu respondi que ficaria encantada; mas Edward não voltou ao projeto por algumas semanas.

Comecei a notar certas peculiaridades de temperamento com mais atenção: ele às vezes usava um ar de conhecimento superior, como se tivesse recebido uma herança mental negada aos outros. Ele gostava de um mistério: cuidadoso em insinuar a existência de uma fonte oculta, ele era igualmente cuidadoso em camuflar sua natureza. Ele poderia ser dogmático em pontos que, humanamente falando, pareciam demasiado rebuscados para dogmas; e ele afirmava como verdades o que para mim eram fantasias ou, no melhor

[p 18]

dos casos, especulações. Sua mãe o adorava, tendo fé completa em seu julgamento e habilidade geral. Por fim, eles admitiram que eram membros de uma sociedade secreta, mas me proibiram de divulgar o fato a qualquer pessoa.

Perguntei-lhes se outros que frequentavam a Sociedade Quest também eram membros deste grupo oculto e me disseram que nenhum deles era. (Isso não era estritamente verdade, como descobri muito mais tarde.) Por outro lado, vários deles sabiam da afiliação dos Garstins e desaprovavam silenciosamente.

"Espero que você possa se tornar um de nós algum dia", lembro-me de Edward dizer. "Você vê, nós trabalhamos muito com cores — como artista, você acharia muito interessante."

"Tenho certeza de que sim; estou ansiosa para ouvir mais."

"Esse é o problema: há muito pouco que você pode ser informada até que você seja realmente iniciada."

Referências à fraternidade oculta se tornaram mais frequentes nas conversas dos Garstins: frases como "Sabemos de uma certa fonte..." ou "Há um ensinamento para o efeito de que..." recorriam, assim como a menção de várias personalidades enigmáticas: A.V. era um, 'a Baronesa' outro; e menos frequentemente, 'os Chefes Secretos' faziam uma aparição tentativa. Edward desviava minhas perguntas com "Mais tarde você pode saber".

Embora costumássemos discutir os livros que tínhamos lido, as palestras que tínhamos ouvido na Quest, as personalidades que conhecemos lá e outras pessoas que os Garstins conheciam no passado ou ainda conheciam, senti que a fraternidade não divulgada era a base da vida de Edward e, a uma distância, também da de sua mãe. Lembro-me dos títulos de vários livros que eram constantemente mencionados — ou mesmo recomendados à minha atenção, como lembro, embora um, como aprendi depois, era um documento da Ordem. Além de The Kabbalah Unveiled, eles eram The Book of the Concourse of the Forces, The Book of the Revolutions of Souls (um tratado zoharic sobre reencarnação) e o alquímico Aesch Metzareph (Fogo Purificador), uma obra Qabalística ainda mais abstrusa.

Tais livros eram, eu entendia, o tipo de coisa que os iniciados estudavam, e eu deveria fazer o mesmo se quisesse me preparar para me juntar a eles. The Kabbalah Unveiled pelo menos eu tenho estudado desde aquele tempo, e possuo uma cópia com as notas eruditas de Edward cuidadosamente anotadas nas margens.

Certa noite, após uma palestra, Edward

[p 19]

entregou-me um cartão rabiscado com um endereço, pedindo-me para reservar a próxima quarta-feira para conhecer um amigo seu. Ele não deixou claro que se tratava do grande amigo que havia mencionado anteriormente e não tive a oportunidade de perguntar mais.

No dia marcado, procurei o endereço na Elm Park Road, S.W.10. Tive alguma dificuldade em encontrar a casa, pois os números pareciam estranhamente dispostos — acho que procurava o número 26. Finalmente, estava subindo os degraus de uma fachada georgiana branca e puxando uma campainha antiga. Fui atendido imediatamente por um mordomo, magro, grisalho e sorridente.

'Posso ver', olhei para o cartão, 'a Sra. Evan Weir?'
'Ela está esperando você?'
'Sim.'
'Por aqui, por favor.'

Logo dentro da porta havia uma escada, um tanto escura; enquanto subíamos, o som de uma conversa animada vinha de uma sala acima. Entrei, chamando a atenção por minha chegada tardia, meu nome anunciado pelo mordomo. Os Garstins vieram ao meu encontro e me apresentaram à anfitriã, depois a um homem da idade de Edward e a uma garota de aparência sólida um pouco mais velha que eu. O homem deve ter sido o Major Lewis Hall, mas não tenho ideia de quem era a garota. A conversa era geral e deliberadamente trivial; não houve discussão sobre "nossos assuntos" — para minha surpresa, pois agora adivinhava onde estava. Eu não percebi que este chá da tarde era o equivalente aos fins de semana sociais nos quais os candidatos à promoção nos Serviços (e em algumas empresas) são convidados — com a teoria de que as pessoas se revelam mais completamente quando não precisam "fazer" nada, apenas "ser".

O ambiente da sala (e de fato, de toda a casa) era peculiar; a cor suave e sombria das paredes e cortinas contribuía para isso, embora a disposição fosse de bom gosto e projetada para combater de maneira espaçosa a opressão de um teto muito baixo. Julguei que os móveis eram bons e notei um ou dois bibelôs orientais requintados. A lareira acesa contrastava agradavelmente com o fogão a gás no apartamento dos Garstins, que sempre estava ajustado para a chama azul e não emitia calor; contudo, aqui as cortinas fechadas provocaram em mim algo diferente de um sentimento de segurança. Nas

[p 20]

paredes pendiam pinturas escuras e nebulosas no estilo de G. F. Watts, agora devido para reavaliação, que naquela época não era do meu gosto. Uma delas era um grande retrato de um homem que Edward identificou para mim como o próprio MacGregor Mathers — ele sempre falou com a maior admiração de Mathers e sua esposa Moina — e acho que havia telas menores representando Adão e Eva, e um anjo. Apesar da porcelana e prata imaculadas da bandeja de chá, sobre as quais o mordomo presidia, senti a presença de teias de aranha inapreensíveis.

A Sra. Weir — como a chamarei — deve ter estado perto dos sessenta anos, seu cabelo ondulado sedosamente quase branco, embora sua pele estivesse pouco marcada. Uma figura esguia em tafetá cinza, seus movimentos eram graciosos, mas, em contraste, o timbre de sua voz era áspero, e um brilho súbito brilharia em seus olhares habitualmente lentos. Faltava ironia à digna elegância de seus modos. Em um momento, ela me perguntou: 'Você é psíquico?' e hesitei em alguma resposta não comprometedora — eu realmente não sabia se era ou não. Depois de um tempo, o homem e a garota devem ter saído e chegamos ao objetivo da minha visita. A Sra. Weir explicou que os ensinamentos da Ordem eram dados principalmente através do ritual — 'Belíssimo, belíssimo!' interveio a Sra. Garstin — e perguntei se era uma ordem Rosacruz. Houve então o que Ronald Firbank chama de 'um silêncio ocupado' — ninguém podia responder, pois nenhum Rosacruz genuíno pode reivindicar ser tal. Eu mencionei Yeats e a Sra. Weir respondeu: 'Ah, ele é um de nossos rebeldes.'

Finalmente, ela me passou uma folha de papel impressa à mão que vi ser uma forma de solicitação para ingressar na A∴O∴ Lodge da G.D. no Outer. Garantiu-me que minha O — n não conteria nada contrário aos meus deveres civis ou religiosos. Perguntei o que o O — n significava e me disseram que representava 'Obrigação', o Juramento de Sigilo que eu seria obrigado a prestar. Embora eu não tenha reconhecido na época, essas abreviações eram resquícios do uso maçônico. Eu não acho que as palavras reais, Golden Dawn, apareceram em qualquer lugar do documento, mas uma ou duas condições de adesão foram estabelecidas, sendo uma delas que os candidatos deveriam ter atingido a idade de vinte e um anos. A mais importante era que eles 'devem acreditar nos Deuses, ou pelo menos em um Ser Supremo'. Pareceu-me que essa formulação dava mais importância ao primeiro do que ao último — como Animista natural, eu não tinha problema com essa ordem de precedência, mas eu não poderia

[p 21]

definitivamente me declarar crente em nenhum dos dois. Disse que estava aberto à convicção e assinei meu nome no espaço fornecido. A Sra. Weir prometeu apresentar minha solicitação aos Chefes Secretos.

Cerca de uma semana depois, recebi uma nota dela contendo apenas uma linha me dizendo que minha candidatura não havia sido aprovada. Mostrei isso ao meu primo na próxima reunião da Quest: ele, claro, já estava informado e parecia não apenas arrependido, mas embaraçado. Ele contava com a minha aceitação e não conseguia dar nenhuma razão para minha rejeição, exceto que eu ainda não estava "pronta" para a Ordem. Ele me disse antes que havia aqueles que, embora desconhecidos para mim, me conheciam melhor do que eu mesmo. Fiquei extremamente desapontada que Eles me recusaram.

Além dos possíveis Chefes Secretos, a explicação óbvia é que a Sra. Weir não gostou de mim — sem dúvida eu era ingênuo e minhas tentativas brutais de honestidade intelectual podem ter parecido deslocadas para ela. Uma mulher de sua idade pode achar difícil aceitar alguém muito mais jovem, especialmente outra mulher. Mais tarde, ouvi fofocas de que ela preferia se cercar de homens, embora não possa dizer quão verdadeiro isso era. Novamente, ela pode ter sentido que eu estava um tanto satisfeito comigo mesmo: meu talento já era reconhecido como um dos mais originais de minha geração na Slade; e embora eu tenha me abster de comentários maldosos sobre a pintura vitoriana, certamente pensei que sabia do que se tratava a arte. No entanto, não acredito que essas explicações cubram o terreno: se ela quisesse me recusar com base em seu próprio julgamento, não havia necessidade de produzir o formulário de inscrição. Acredito que ela queria me dar uma chance, mas pode não ter sido livre para decidir a questão.

Acho que Edward deve ter feito contato com a A∴O∴ Lodge logo depois que foi estabelecida, quando ele foi desmobilizado do exército após a Guerra de 1914-18. Não sei se o contato foi direto ou através da Sra. Weir ou de outra pessoa, mas sei que o rompimento de seu primeiro casamento enquanto ele estava ausente no serviço o deixou quase sem recursos, pois sua esposa era uma gastadora compulsiva. Talvez ele tenha se voltado para o ocultismo em uma recuperação emocional: em um período, acredito que ele esperava casar-se com Enid, a filha adorada da Sra. Weir. Esses três eram, tanto quanto sei, os únicos membros a alcançar o Grau de 7°=4, a menos que Margery Stuart Richardson, sobrinha da Sra. Weir, tenha feito isso mais tarde. Quando o conheci, ele se tornou um

[p 22]

estudante meticuloso dos Mistérios, vivendo de maneira modesta, toda sua energia dedicada ao trabalho da Ordem e a suas próprias pesquisas. Ele e sua mãe seguiram um regime vegetariano sem álcool, combinando ascetismo com economia. No entanto, a mente dele era por natureza cética e ele ganhava a vida (quando o fazia) por vários empreendimentos comerciais: ele também era um excelente chef e tinha sido um dançarino de salão campeão, parceiro da esposa pródiga; ele não era, exteriormente, um tipo 'espiritual' de forma alguma.

Embora eu continuasse a visitar meus primos de vez em quando, uma nuvem ou melhor, uma névoa parecia ter esfriado nosso relacionamento. Uma vez Edward me pressionou a pegar emprestado sua cópia de um raro texto alquímico, uma tradução da Físio-Filosofia de Laurenz Oken, acho eu, ou pode ter sido o inédito Manual Process — que, como ouvi mais tarde, o Dr. Wynn Westcott havia permitido que alguns membros iniciais da GD copiassem. Seja qual for, quando mais tarde pedi por ele, ele negou ter tido tal obra em sua posse, embora meus próprios olhos a tivessem visto em suas prateleiras.

Eu nunca consegui penetrar no estúdio além da biblioteca em Clareville Grove.



CAPITULO DOIS

[p 23]

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Chefes (1)

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Hesito em descartar minha rejeição com uma explicação de bom senso porque uma noite, logo após minha visita à Sra. Weir mas antes que ela me contasse sobre seu desfecho, senti uma estranha sensação enquanto adormecia. Muito tempo depois, usei isso como base para uma descrição em meu romance gótico, Goose of Hermogenes (1961), então não posso fazer melhor do que citar isso:

... como se alguém estivesse explorando-me, não fisicamente, mas em algum plano menos palpável; ou tentando me influenciar agindo diretamente sobre minha vontade sem os meios normais de palavras ou outras sugestões. Uma vez, a impressão de ataque ou invasão psíquica era tão forte que precisei de toda a minha força para resistir. No entanto, minha vontade estava instintivamente definida para a resistência, pois senti que a menos que eu tivesse sucesso nisso, seria irremediavelmente arrastada. Uma espécie de paralisia se abateu sobre meus membros enquanto eu lutava; e tanta energia foi drenada de minha forma física que me encontrei por algum tempo incapaz de me mexer?

A única modificação que eu faria no acima seria deixar de fora a palavra 'ataque', embora eu ache justo reter 'invasão'. Eu não senti nem medo nem hostilidade em relação à influência, seja lá o que fosse — suponho que, porque não era antagonista para mim, apenas inquisitiva. Parecia impessoal: posso chamá-la de influência cinza? Não tive impressão de individualidade por trás dela, embora me lembre de algo como um som 'interior' ou vibração distante. Daqui em diante, vou chamá-la de Poder de Y. Curiosamente, eu não o conectei imediatamente com o A∴0 ou seus Chefes Secretos: só depois de receber a nota de recusa comecei a fazê-lo. Antes disso, eu mal levava os Chefes Secretos a sério.

Por que eu não confiei essa experiência ao meu primo e pedi seu conselho? Eu não sei! Talvez eu tivesse medo de me dizerem que

[p 24]

sempre estava imaginando coisas e essa era uma delas; os artistas se familiarizam demais com observações desse tipo, e Edward podia ser secamente sarcástico em ocasiões. Qualquer que seja meu motivo para o silêncio, não disse nada a ninguém.

Não muito tempo depois, para desgosto da Srta. Worthington e de muitos outros membros, o Sr. Mead decidiu dissolver a Sociedade Quest e dedicar seus dias restantes ao Espiritismo. Esses dias não foram muitos: ele se mudou para as Ilhas do Canal — seguindo os passos de Victor Hugo? — e morreu lá depois de passar cerca de um ano em comunhão com seus supostos sábios chineses. A biblioteca foi vendida e a locação dos estúdios foi abandonada; Edward começou um pequeno grupo chamado The Search Society, mas era apenas uma sombra do corpo principal. Eu fui membro dele até sair da Slade, uma vez me dirigindo a ele sobre "A Conexão entre Blasfêmia e Misticismo"; depois disso, fui para o exterior para mais estudos e perdi contato com os Garstins e seus Buscadores.

Foi cerca de seis anos depois, depois que retornei a Londres e montei meu estúdio lá, que encontrei novamente o Poder de Y. O casal que morava ao lado de mim, a quem vou chamar de Jack e Margot, falava muito de um professor-curandeiro cujas ministrações eles achavam úteis: ele tinha o nome um tanto poético demais de Meredith Starr. Eu não sabia então (nem, talvez, eles) que este era o nome de caneta, agora usado para todos os propósitos, de um tal Herbert H. Close que havia sido associado a Aleister Crowley no conselho editorial do Equinox em 1912; alguns versos dele apareceram em seu No. VII quando ele deve ter sido um jovem. Lembro-me de Jack me dizendo que em um livro de poemas de Meredith as dedicatórias afetuosas haviam sido riscadas — assim como, sem dúvida, suas amizades originárias. Crowley estava entre os últimos: Superna Sequor era o lema mágico do Sr. Close na dissidente Ordem do Argenteum Astrum (= Estrela de Prata).

Não descobri se Meredith estava, antes de sua associação com Crowley, conectado com a GD ou qualquer uma de suas outras dissidências. De qualquer forma, meus vizinhos não o apresentaram como um ocultista, mas sim como um psicoterapeuta autônomo, alguém que poderia 'organizar as coisas', ajudar a 'encontrar a si mesmo' e geralmente desembaraçar os novelos emaranhados da personalidade. Eles me incentivaram a consultá-lo e eu concordei; isso implicava ir ficar em Frogmore,

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sua casa no campo. Lá ele poderia observar alguém em condições do dia-a-dia; Jack e Margot passavam a maior parte dos fins de semana lá, às vezes também semanas seguidas, juntos ou separadamente.

A fórmula básica para tais estabelecimentos é simples: adquira uma casa grande com jardim, também uma esposa obediente e trabalhadora e/ou uma seleção de concubinas com qualidades semelhantes; depois, colete discípulos de ambos os sexos dispostos não apenas a pagar por sua manutenção, mas a trabalhar por ela. (Você recomenda o trabalho em casa e no jardim por seu valor terapêutico, mas isso também economiza a despesa de contratar funcionários.) A fórmula foi usada com sucesso por vários anos no início deste século por "Monsieur Gurdjieff" em Fontainebleau; por Crowley (mais brevemente) em sua Abadia de Thelema, Cefalu, no início dos anos vinte, e por P. D. Ouspensky nos anos trinta, quando ele ocupou pelo menos duas propriedades diferentes nos condados de origem. Para expandir a observação cínica de que "atrás de todo professor ocidental está uma pensão ou um bordel", eu colocaria Meredith e Ouspensky na primeira categoria; mas se os relatórios dos internos são precisos, havia pelo menos elementos do segundo chez MM. Gurdjieff e Crowley.

Meredith parecia ter feito um bom começo para colocar sua versão da fórmula em prática. Em um dia frio de novembro, ele e Jack me encontraram com um carro surrado na estação mais próxima de Frogmore. A cabeça de Meredith era maior do que se esperaria de sua estrutura frágil, e careca, exceto por uma borda de cabelo escuro ao nível das orelhas; sua pele era de um tom ceroso, seus olhos grandes e azul-acinzentados. Sem o olhar fixo do pseudo-ocultista, eles ainda eram sua característica mais marcante.

Frogmore provou ser uma casa de tijolos vermelhos situada em terreno inclinado; a atmosfera da propriedade me atingiu imediatamente como sombria, o interior não menos. A sala de jantar era sombriamente revestida e quase sem iluminação; todos nós nos sentamos em uma longa mesa com Meredith à cabeça. A dieta, estritamente reformista alimentar, estava longe de ser a deliciosa comida que a comida vegetariana pode e deve ser: lembro-me de uma sopa sem gosto com algo parecido com grãos de cevada em suspensão, também folhas inteiras de repolho cozido como linóleo escuro. Não sei por que eles não poderiam ter sido picados, temperados e servidos com um molho apetitoso: talvez isso destruísse sua virtude? A alimentação e a gestão da casa estavam a cargo da Sra. Starr e de sua irmã, almas bondosas e trabalhadoras que

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provavelmente tinham que se virar com um orçamento escasso que testaria o mais experiente dos cozinheiros. Não creio que muita coisa passasse para elas através de Meredith. Havia também vários residentes semi-permanentes, todos mais ou menos neuróticos, que ajudavam e sem dúvida eram ajudados em troca.

Os recém-chegados, via de regra, passavam o primeiro dia na cama — para um relaxamento completo, conforme Meredith explicava. Todos os dias, ao amanhecer, ao meio-dia e à noite, uma hora era dedicada à meditação quando todos os membros da casa, na medida do possível, se retiravam para seus quartos e deitavam-se em suas camas com tapete e bolsa de água quente. O aquecimento não subia além do térreo, não havia meio algum de aquecer os quartos menores e as velas forneciam sua única iluminação. Jack, como residente de longa data, recebeu um ou dois pequenos sótãos, ainda mais austeros, sobre a antiga casa de carruagens.

Meu quarto era frio, apertado e desgastado; quando mais tarde eu descrevi para Margot, "Muito simples", ela murmurou com um olhar distante. Mas é simples quando toda a água precisa ser transportada, o banheiro está a um longo caminho por um corredor assustador e o único calor vem de garrafas quentes? É um banheiro de composto no jardim que precisa ser esvaziado periodicamente realmente mais simples do que a drenagem principal? Ou, ao invés, a ausência de conveniências modernas, não torna a administração da casa menos simples do que se as coisas fossem organizadas com um pouco de bom senso? Suspeito que hoje algumas garotas hippie, depois de se integrarem entusiasticamente a uma comuna, aprendam esse mesmo fato da maneira difícil. A vida pode ser simples para seus homens se eles fazem pouco além de discutir o que chamam de filosofia, mas e quanto às mulheres? Manter-se mesmo relativamente aquecido, limpo e alimentado em condições primitivas é mais difícil do que em ambientes mais 'quadrados'. (A propósito, quão desatualizada é muita ideologia hippie quando se trata de considerar as mulheres como seres humanos! Ou de não as considerar de todo.)

No entanto, eu tinha vindo apenas para um fim de semana e passei devidamente o primeiro dia na cama. Durante as horas de meditação, minha mente previsivelmente vagava, mas, como Meredith sugeriu, voltei minha atenção para a ideia de relaxamento. Ele veio ver como eu estava indo, e deu conselhos em seus tons habituais e calmos enquanto se sentava na cama afundando. Eu tinha pouco a relatar. No período da noite, ele não me visitou — não, pelo menos em pessoa; mas quando a breve luz do dia se apagou, senti mais uma vez o início do misterioso Poder do Y. Foi reconhecivelmente

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a mesma sensação, embora menos intensa, que senti quando fui examinado para ser membro do A∴ O∴ Fiquei de lado mentalmente, observando, mas nada mais aconteceu. A força foi gradualmente retirada ou dispersa e eu voltei à consciência normal e finalmente adormeci.

No dia seguinte, me foi permitido levantar e vestir-me; e quando se aproximava a hora da meditação do meio-dia, eu não tinha vontade de subir novamente para o meu quarto desconfortável. Em vez disso, retirei-me para o estudo de Meredith, o único quarto agradável da casa. Sofás foram colocados em ambos os lados de uma fogueira crepitante e protegidos de correntes de ar por uma tela; aqui eu me instalei, tendo selecionado uma tradução de Axel por Villiers de I'Isle Adam de uma prateleira de livros fascinante. Eu estava procurando pela citação favorita de Yeats e especulando sobre a melhor maneira de declamá-la: 'Quanto a viver, nossos servos farão isso por nós!' ou, 'Quanto a viver, nossos servos farão isso por nós!' quando Meredith entrou na sala.

"Ah, mas por que você não está no seu quarto? Já passou do meio-dia."
"Está frio lá em cima; não posso meditar onde estou?"
"Bem, talvez apenas desta vez, até que você se acostume com a nossa rotina. Mas sem livros, temo; apenas relaxe, não faça nada com sua mente, como já disse antes."
"Você disse que eu poderia consultar sua biblioteca."
"Depois!" ele respondeu, fechando suavemente Axel e o recolocando na estante antes de sair para suas rondas.

Logo depois, Jack também apareceu e pareceu descontente com a minha presença. A meditação era às vezes conduzida a dois? Caso contrário, por que ele não estava no quarto dele? Eu nunca soube.

Não tenho certeza se, com o período de relaxamento da noite, experimentei a visitação mental mais uma vez; mas se sim, foi com um impacto muito mais fraco. Depois disso, não aconteceu novamente; e eu não discuti isso com Meredith mais do que eu tinha com Edward — neste caso, eu suponho, pela boa razão de que eu não confiava no meu mentor. Ele também não se referiu a isso, mas sugeriu um pouco de trabalho no jardim. Eu respondi que me sentia incapaz de fazer isso; afinal, eu tinha vindo para descansar e não tinha trazido roupas adequadas para o trabalho no campo — minhas meias transparentes e sapatos de cidade sendo particularmente inapropriados para os caminhos úmidos e arbustos de Frogmore. No entanto, eu fiz um pequeno tour pela propriedade e achei-a muito deprimente:

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além do descuido, o lugar exalava uma melancolia à la Casa dos Usher. Em um canto remoto havia algum tipo de poço inutilizado ou fossa profunda onde, imaginei, qualquer coisa poderia ter acontecido.

Eu parti depois do final de semana, Meredith me encorajando a voltar para uma estadia mais longa (se essa é a palavra certa). Eu não fiz isso; alguns meses depois ele escreveu me dizendo que eu deveria enfrentar meus problemas e quanto antes, melhor. Embora eu não discordasse disso, não achei que ele poderia me ajudar e ressentia-me do seu tom autoritário, embora não de sua opinião sobre mim, como relatado depois por Margot — que eu era "uma planta de estufa". Eu considerei isso apenas como um vislumbre do óbvio. Ela também me contou como um dia reclamou para ele de uma dor de cabeça excruciante, como uma faixa apertando; sua resposta foi: "Não gosto de usar esses métodos, mas às vezes eles são necessários para fazer você entender um ponto". Agora eu acho que ele me escreveu em um estado de desespero devido à falta de clientes. Mais tarde, até Jack e Margot se desiludiram com ele: Frogmore foi abandonado e ele se instalou em algum lugar sombrio no norte de Londres, passando todo o seu tempo em bolões de futebol.

Mais tarde, cruzei com o rastro dele em Chipre, onde a polícia estava de olho nele; havia algum escândalo envolvendo uma jovem que o havia consultado como paciente, mas recebeu mais do que esperava. No entanto, nenhuma acusação foi feita contra ele; é justo registrar que algumas pessoas lá ficaram impressionadas com ele e se beneficiaram de seu tratamento. O que aconteceu com ele depois que deixei a ilha (onde não o procurei) eu não faço ideia. Suspeito que Frogmore tenha sido seu ponto alto; e como eu vejo as coisas agora, seu principal interesse para os amadores do esotérico está em sua possível ligação na cadeia de evidências para a atividade dos Chefes Secretos.

Um salto adiante de mais de dez anos me traz para o período pós-guerra e um desejo renovado de entrar em contato com a Golden Dawn. Embora eu tenha me encontrado novamente com Edward Garstin, ele só pôde me dizer que a A:.0:. havia sido dispersa com o surto de hostilidades em 1939 e os móveis de seu templo destruídos por instância dos Chefes Secretos. A Sra. Weir tinha envelhecido muito e ele não recomendou que eu tentasse vê-la. Como ela não tinha sido muito útil antes, eu não insisti — erradamente, como agora reconheço. Na opinião de Edward (e dela, como transmitido a mim por ele) não havia nenhum grupo iniciatório genuíno operando em Londres naquela época.

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Então, comecei a procurar por mim mesmo e entrei em contato com um jovem casal que então dirigia um ramo britânico da Ordo Templi Orientis de Crowley (=Ordem do Templo do Oriente).[1] Durante o ano ou dois seguintes, aprendi muito com eles e com o curso de leitura que sugeriram. O ritual em grupo não fazia parte das primeiras etapas; e a configuração chegou ao fim de repente e logo. Ouvi pelo menos três versões da causa de sua cessação, mas como não sei qual, se alguma, é a correta, não vou detalhá-las aqui.

Então Gerald Yorke sugeriu que eu tentasse a Sociedade da Luz Interior; Edward não tinha uma opinião muito favorável desta sociedade, mas alguns amigos meus, Rupert e Helen Gleadow, eram membros e a achavam satisfatória. Eles mantiveram um acompanhamento do meu progresso uma vez que eu me candidatei a me juntar. O primeiro passo foi uma entrevista na sede da Sociedade em Bayswater com o Diretor de Estudos, Sr. R. H. Mallock. Com ele, aprendi que a admissão só era concedida aos candidatos que completassem com sucesso um Curso por Correspondência tripartite; então, comecei isso em 1952.

As relações eram estritamente postais: além do Sr. Mallock, eu não conheci nenhum membro, exceto um amigo dos Gleadow, Gerald Gough, que atuava como bibliotecário. A porta da frente às vezes era aberta por um Sr. Creasy ou uma Miss Lathbury, que podem ter sido alguns dos poucos privilegiados permitidos a acomodações na sede. Nunca conheci meu supervisor, Sr. Ernest Bell, que escreveu comentários sobre meus trabalhos quinzenais, meu registro de meditação e o ensaio que eu era obrigado a enviar no final de cada seção. Tudo correu bem até o terceiro ensaio, quando alguma frase minha fez o Sr. Bell consultar o Diretor de Estudos. O Sr. Mallock, por sua vez, passou o trabalho para o Diretor, que me proibiu de continuar trabalhando.

O que eu disse para agitar o pombal ou, alternativamente, mexer no ninho de cobras? Só insinuei discrepâncias entre a visão de mundo da Qabalah (mesmo interpretada por Dion Fortune) e a de seu tratado The Cosmic Doctrine, que deve algo a certos aspectos do ensino de Mme Blavatsky. No Curso por Correspondência da Inner Light, esses dois eram companheiros de cama desconfortáveis, onde frases

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como "o Logos Solar" se chocavam com a terminologia hebraica. Que havia não apenas um choque nos sinais, mas também nas coisas significadas, parecia-me óbvio e era pelo menos uma opinião sustentável, então protestei contra minha demissão sumária. Os Gleadows ficaram chateados e me disseram que o pobre Sr. Bell quase chorou sobre "um dos melhores alunos que ele já havia treinado". Alguém deve ter suavizado as coisas porque o Sr. Mallock me convocou para uma nova entrevista, mas ele não estava presente nela e fui deixado para enfrentar o Diretor, Sr. A. Chichester, sozinho.

Assim que ele entrou na sala — após os vinte minutos estatutários de espera — as palavras "padre mimado" surgiram na minha consciência: eu quase podia ver as dobras negras de uma sotaina batendo em seus tornozelos. (Com certeza, ele mencionou durante a nossa conversa subsequente que havia estudado em um colégio jesuíta nos arredores de Dublin.) Ele era um homem loiro pálido na meia-idade, de algum poder espiritual ou devo dizer psíquico, capaz de obcecar alguém se assim o desejasse. Ele começou a ler em voz alta alguns trechos do meu ensaio ofensivo em um tom de condescendência que pretendia me irritar; Eu pacientemente esclareci o meu significado onde ele parecia ter perdido.

Eu mencionei que meu supervisor só podia responder perguntas rotineiras sobre a Cabala, qualquer coisa técnica tendendo a derrubá-lo.

'Ah, a Cabala é vaga.'

O Sr. Chichester continuou a menosprezar o sistema tanto que eu perguntei por que ele o incluiu no curso de todo, e foi dito que 'Dion Fortune gostava disso'. Fiquei surpreso com essas respostas: se a Cabala não for do seu agrado, você pode razoavelmente atacá-la em vários pontos, mas a vagueza não é um deles. Mais apropriado seria uma acusação de excesso de precisão, uma atenção obsessiva aos detalhes. Eu podia ver que ele entendia pouco do assunto e se importava menos; no entanto, tendo chegado tão longe e sem conhecer nenhuma outra abordagem para o ensino da GD, persisti em minha aplicação.

'Qual é o seu motivo?'
'Iluminação.'
'Por que você quer iluminação?'
'Eu preciso notar essa questão. ‘Nunca me ocorreu questionar o fato de que a iluminação é valiosa por si mesma.'

Finalmente concordamos que eu deveria prosseguir para o Curso do Limiar, administrado pelo Sr. Mallock; e isso eu fiz. Não acho que eu poderia

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ter me saído pior do que o candidato médio, mas no final ele escreveu que, embora o meu trabalho fosse considerado 'adequado [1] no nível mental', eu não era no momento adequado para a iniciação. Ele me aconselhou a esperar um ano, prometendo reabrir a questão após o próximo Equinócio Vernal.

Foi cerca de um mês após aquela data no ano seguinte e eu comecei a me perguntar se eu deveria ouvir a Luz Interior, quando uma noite senti novamente o início do Poder de Y, embora desta vez com menos impacto. Alguns dias depois, o Sr. Mallock escreveu sugerindo que eu repetisse o Curso de Correspondência desde o início: percebi imediatamente a mão sem vida do Guardião que, ao me atribuir uma tarefa de Sísifo, garantiu que a responsabilidade da recusa passasse para mim. Respondi que, tendo completado as primeiras seções para a satisfação do meu supervisor, achei a sugestão nada construtiva. Fim.

Sem dúvida, o Sr. Chichester decidiu em nossa entrevista cerca de dezoito meses antes que ele não me queria como membro, e teria barrado minha entrada, não importa o que eu fizesse. O Sr. Mallock não era mais do que um porta-voz para ele; Sr. Bell, nem mesmo isso. No entanto, talvez ele tenha levado a sério minha crítica aos incompatíveis, já que percebo que nos últimos anos a Sociedade abandonou a Cabala; e de sua escolha anterior de três ‘caminhos’ — o Hermetic, o Dionisíaco e o Cristão — agora oferece a seus iniciados apenas o último, alcançando assim pelo menos alguma consistência.

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CAPÍTULO TRÊS

Chefes (2)

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Quem eram (ou são) os Chefes Secretos? Certos membros da A:.0:. afirmavam estar em contato com Eles, como eu descrevi; por exemplo, dizia-se que Eles tornavam conhecidos Seus desejos através da Sra. Weir, Imperator da Ordem. Sua autoridade era derivada em linha direta de Mathers — sua predecessora imediata no cargo e elo de ligação sendo sua viúva, Moina.

Meredith Starr não falava dos Chefes, tanto quanto eu ouvi; mas ele tinha sido um discípulo de Crowley que estava sempre falando sobre Eles, alegando entre muitas outras coisas que Eles o inspiraram desde 1904 quando um de Eles ditou para ele o roteiro de Liber AL vel Legis (= O Livro da Lei).

A Sociedade da Luz Interior não os chamava de Chefes Secretos, preferindo o termo Teosófico Mestres: o Curso de Correspondência fazia alusões frequentes a Eles sob esse nome e os alunos que o seguiam eram exortados a fazer uma saudação a Eles todos os dias ao meio-dia. Outra ramificação dissidente do GD, a Ordem da Stella Matutina (== Estrela da Manhã), afirmou em um período de sua história que havia feito contato com alguns 'Mestres-Sol'; pessoalmente, desconfio de tais seres a menos que sejam equilibrados por Mestras-Lua, e digo isso sem intenção de gracejo.

É necessário um conceito como o dos Chefes Secretos para explicar as experiências pelas quais passei? Não seria suficiente postular algum poder psicofísico (eu já o chamei de Poder de Y) ainda não compreendido pelos profanos, mas manipulado por um indivíduo ou grupo instruído na técnica apropriada? Só posso responder que nas ocasiões em que senti sua força, foi posta em movimento por ou através de pessoas que poderiam reivindicar algum vínculo, próximo ou distante, com os Chefes Secretos do GD. No primeiro exemplo que dei, essas pessoas poderiam ser a Sra. Weir ou (menos provável) meu primo ou algum outro

Moina Mathers.png

Moina MacGregor Mathers, c. 1895.




De Beauvoir Place.png

108 De Beauvoir Road, Londres, N.1 (anteriormente 11 De Beauvoir Place, West Hackney). Mathers nasceu na casa do centro, em 1854.




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Igreja de São Pedro, Rua De Beauvoir, onde Mathers foi batizado.

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membro da A:.0:.; no segundo caso, o próprio Sr. Starr; e Sr. Chichester, talvez com algum associado, no terceiro.

Até que ponto distante, em termos de espaço 'material', o Poder exploratório de Y pode se estender? Não muito longe, pelo que posso dizer: no meu primeiro exemplo, de Chelsea a Bloomsbury; no meu segundo, de um quarto para outro na mesma casa; e no meu terceiro, de Bayswater a Hampstead. Ao mesmo tempo, é discutível que se tal poder pode ser projetado a uma distância de cinco milhas, deveria ser capaz de extensão para cinquenta ou quinhentas, as limitações espaciais não obtendo na 'dimensão' relevante. Só posso dizer que, até onde posso descobrir, não o faz; sua virtude tende a diminuir com a distância, como a da luz ou calor.

Exatamente como funcionou nos casos que citei? Claramente, não requeria o elo mágico xamânico entre agente e paciente necessário na maioria dos sistemas primitivos, como cabelo, unhas, sangue, saliva ou pelo menos algo habitualmente usado na pessoa. Nem precisava da 'suspensão voluntária da descrença' do lado do participante passivo que acompanha o trabalho da obsessão fascinante. Eu estive na extremidade receptora deste último pelo menos uma vez e posso testemunhar que os sintomas são muito diferentes daqueles produzidos pelo Poder de Y. Isso também difere de um fenômeno que eu chamo de bombardeio psíquico, uma frase que eu cunho para indicar a sensação sentida pelo receptor. (Não tenho motivo para atribuir qualquer uma dessas trapaças esotéricas à ação dos Chefes Secretos.) Nem o Poder de Y se assemelha ao tipo de projeção astral como geralmente descrito na literatura ocultista, com suas visões concomitantes de figuras vagas ou exóticas e sons de vozes ecoantes — as aparições do Skin Laeka nos romances de Bulwer-Lytton são um exemplo clássico. A principal impressão feita pelo Poder de Y é sua impessoalidade — é essencialmente indramática; e porque não se adequa a nenhuma das categorias anteriores, cunhei um novo termo para identificá-lo.

Em uma carta para Lady Gregory, Yeats contou como 'nossos taumaturgos' — aqueles do Templo Isis-Urania — empregaram uma técnica para convocar uma certa Soror com o propósito de descobrir o que Crowley estava fazendo com ela. Por algum tempo, interpretei isso como se eles tivessem evocado seu 'corpo sutil' para aparecer visivelmente no decorrer de um ritual e depois o questionassem; mais tarde, ocorreu-me que um método mais direto poderia ter sido usado, ou seja, a praxis à qual eu

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mesmo fui submetido. Ellie Howe em Os Magos do Golden Dawn (1972) reforça essa ideia: suas citações de documentos indisponíveis para outros estudantes dão a impressão de que 'exame astral' e 'julgamento astral' eram práticas padrão no auge do GD para avaliar tanto postulantes quanto membros aspirantes à Segunda Ordem. Parece que tais métodos ainda estavam em vigor muito tempo depois e podem ser assim, até hoje.

De onde os taumaturgos de Isis-Urania aprenderam a técnica, se não dos verdadeiros Chefes Secretos? E se essa intuição penetrante é capaz de explorar o eu mais íntimo de outro para determinar sua adequação para treinamento ou seu nível de avanço espiritual, são outras noções do GD sobre os Chefes e seus poderes, delegados ou diretos, totalmente fantásticos? Por exemplo, a ideia de "uma corrente de poder, colocada em movimento pelos Guardiões Divinos de nossa Ordem", ou a ameaça disciplinar de uma "Corrente de Vontade ... pela qual eu posso cair morto ou paralisado". O Ritual do Neófito adverte:

"Eles viajam como nos Ventos —
Eles atacam onde nenhum homem ataca-
Eles matam onde nenhum homem mata"

O que teria acontecido se eu não tivesse resistido ao Poder de Y, mas tivesse cedido a ele? Transe? Coma? Obsessão? Inanidade? Morte? E / ou, Luz em Extensão? Quem sabe? Só posso dizer que em momentos de crise, a gente encontra a Verdadeira Vontade sem procurar por ela: a gente é-e-age instantaneamente, intenção e realização se fundem. Não me arrependo da minha atitude no segundo e terceiro exemplos, mas na primeira ocasião posso ter perdido algo por falta de cooperação. Não se pode culpar os Chefes Secretos por não semear em solo pedregoso — mas, da mesma forma, não se pode culpar o solo por ser pedregoso em um determinado estágio geológico. Só se pode esperar que subsequentemente um solo amadureça a partir dele.

Os grupos ocultistas nunca descrevem seus Chefes Secretos — que são, acima de tudo, secretos. Nem a A:.0:. nem a Inner Light tentaram qualquer substantivação verbal para a existência deles: as declarações sobre eles eram poucas, e essas eram afirmações ao invés de fatos atestados ou mesmo especulações. Aleister Crowley, por outro lado, ao comentar o Liber AL, tentou através de longas contorções mentais convencer

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o leitor de que esse texto foi produzido por uma agência sobrenatural. Até ele não dá detalhes sobre a natureza ou organização deles, e sua explicação dos fenômenos que ele relata está longe de ser a única possível.

A evidência de Mathers sobre seus Chefes, apresentada em seu Manifesto de 1896, tem sido citada tão frequentemente que está quase se tornando banal. Então, além de chamar a atenção para seu desesperado tom de sinceridade — independentemente do que ele estava fazendo, ele não estava deliberadamente inventando e não mostra nenhum vestígio de um desejo de enganar — eu não farei mais do que me referir brevemente ao seu conteúdo. De acordo com este testemunho, Eles são seres humanos com corpos físicos, mas possuem poderes super-humanos e são capazes de funcionar em planos mais sutis que o físico. Eles irradiam vitalidade — mesmo a um grau assustador: enquanto a descrição de Mathers lembra as entidades que Yeats costumava encontrar em visão e cuja tez brilhante fazia até a pele humana mais saudável parecer doente, os Chefes Secretos têm uma carga ainda maior de poder.

De acordo com uma tradição posterior do GD, eles eram um grego, um copta e um hindu — este último menos influente que os outros, presumivelmente. No ritual Adeptus Minor, os nomes dos 'Três Chefes Mais Altos':

'Hugo Alverda, o Frísio... (que soa mais espanhol ou mourisco do que dinamarquês)
Franciscus de Bry, o gaulês. . .
Elman Zata, o árabe. . . '

são ditos estar inscritos no pergaminho segurado pelo próprio Christian Rosenkreutz enquanto ele estava no Pastos. Esses nomes não ocorrem na Fama ou na Confessio conforme reproduzidos em The Rosicrucian Enlightenment (1972) por Frances A. Yates. A família belga de Bry fundou um negócio de gravação e publicação, mais tarde transferido para a Alemanha, que se especializou em obras de uma tendência rosacruciana ou conexão Palatina: pode ter havido um Franciscus na família em algum momento. Hugo de Alverda (ou Alvarda) figura no Labyrinth of the World (1631) de Comenius como Praepositus para um grupo de sábios, sua idade é dada como 562; o panfleto Fortalitium Scientiae (1617) é atribuído a ele. Não encontrei nenhum vestígio de Alman Zata além do ritual Adeptus Minor. Estes são os nomes mágicos de um grego, um copta e um hindu ou os Chefes de Mathers são tão distintos

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dos do GD quanto estes foram dos Mahatmas de Blavatsky?

No volume II de The Golden Dawn, Israel Regardie aponta que as imensas idades atribuídas aos membros deste trio em sua morte sugerem a posse do Elixir, permitindo-lhes usar seus corpos físicos enquanto precisassem deles. A história das origens da Ordem esboçada no decorrer do mesmo Ritual sugere que eles finalmente abandonaram esses corpos em alguma data antes de Christian Rosenkreutz (nascido em 1378) fundar a Ordem.

Ellie Howe cita o Pergaminho que listava os membros da Segunda Ordem do GD, ou Ordem Interna, a dos Rosae Rubeae et Aureae Crucis (= da Rosa Vermelha e da Cruz Dourada), começando com as assinaturas ou melhor, os lemas mágicos dos três Chefes: Lux Saeculorum, Lux Benigna e Lux in Coelis (= Luz das Eras, Luz Benigna e Luz nos Céus). Qualquer um que tenha visto Faust de Goethe apresentado em sua totalidade será lembrado dos três Sábios que figuram na cena final — Pater Ecstaticus, Pater Profundus e Pater Seraphicus. O Dr. Wynn Westcott, de quem Howe suspeita ter forjado essas assinaturas, pode não ter conhecido o suficiente de alemão para enfrentar Faust no original, mas ele pode ter estudado a versão de Bayard Taylor publicada em 1871, ou uma das várias traduções anteriores para o inglês por outras mãos. É bem sabido que Goethe passou por algum tipo de iniciação em sua juventude e sua imagem desses sábios, tirada da mesma fonte arquetípica que forneceu aos fundadores do GD, é a mais próxima que a maioria das pessoas chegará de uma representação dos Chefes Secretos. A tríplice Luz de Westcott é uma verdade vista do ponto de vista Místico, distinta do ponto de vista Mágico (ou ocultista) — não foi o fundador do Hermetismo chamado Trismegistus? Se alguém se sentir inclinado a questionar a natureza exclusivamente masculina de tais tríades, a resposta pode ser encontrada mais cedo no drama quando Faust visita o misterioso reino das Mães — certamente havia três delas? — entidades pelo menos tão poderosas quanto esses Pais, uma Deusa Tripla prenunciando um Deus triplo (ou pelo menos, semi-deus). As Mães são então subsumidas na figura da Mater Gloriosa, que, resplandecente em escarlate, branco e ouro, domina o último quadro, Fausto próprio tendo assumido seu nome e se tornando 'Doctor Marianus'.

Alguns consideraram os Chefes Secretos como não mais do que exemplos do Arquétipo — Jungiano, como o Velho Sábio ou Freudiano, como

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a figura do Pai — dado uma proeminência indevida por uma personalidade neurótica ou grupo ativado por neurose. Eles podem estar relacionados a tais arquétipos, mas não consistem apenas nisso: são aceitos como psicologicamente válidos porque podem, se necessário, se externalizar em entidades perceptíveis para a consciência humana, ou mesmo se manifestar como seres humanos. Assim, a tríade de Imperator, Praemonstrator e Cancellarius que idealmente deve governar cada Templo GD reflete uma tríade de Chefes nos planos internos. Tal tríade de templos humanos pode se reunir em convocação quando necessário para examinar e relatar sobre um candidato em potencial e, assumindo seus Chefes Secretos como formas de deus, projetar seu Poder de Y no postulante ausente.

Moina Mathers afirmou que seu marido foi encarregado por seus Mestres de fundar uma escola oculta por volta da data de sua primeira edição de The Kabbalah Unveiled (1887). Nessa época, ele estava sob a direção do Dr. Wynn Westcott, então Magus Supremo da Societas Rosicruciana in Anglia, mas dificilmente teria sido Westcott quem em 1891 o ordenou 'transferir seu centro oculto para Paris'. Se fossem os Chefes do GD, Seu comando pode ter sido dado a ele pelo motivo simples de que, já que Eles residiam em Paris no sentido físico, a comunicação seria mais fácil para ambas as partes se Mathers se instalasse lá também. Paris teria sido então Seu 'retiro', usando a palavra em seu sentido Teosófico de um local físico escolhido para a habitação por um ser possuído de super poderes físicos. Assim como o Mestre Hilarion (Teosófico) tem reputação de ter seu retiro nas Colinas Nilgiri do Sul da Índia, assim a habitação dos contatos de Mathers estava localizada no Bois de Boulogne. É por isso que ele escolheu uma casa — 87, Rue Mozart — no bairro adjacente de Auteuil, embora este bairro na moda exigisse um aluguel além de seus meios. Mesmo depois de ter trocado por Buttes Montmartre, ele parece ter ansiado por sua antiga morada, pois voltou para a vizinhança no início dos anos 1900, vivendo primeiro em 4, Rue de la Source, Passy, e depois em La Celle-Saint-Cloud (S:. et O:.). Depois de retornar de sua estadia em Londres, ele viveu por um tempo em Saint-Cloud por volta de 1912, e finalmente se estabeleceu na Rue Ribéra no 16° Arrondissement novamente perto do Bois de Boulogne.

O Dr. Serge Hutin, em sua edição de Les Noces Chimiques de Christian

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Rosenkreutz (1973), identifica a lendária Damcar, sede dos Chefes Secretos, com uma cidade do Iêmen. Ele não apresenta nenhuma evidência: sua localização pode ter sido (ou ainda ser) entre os Zaiditas de Saada; ou em Zebed, lar da geometria, cuja madrasa é irmã de Al Azhar, a Escola de Sabedoria no Cairo; ou com a pequena comunidade de Ismaelis em Djebel Harraz, San'aa. Em qualquer caso, a afirmação destaca a afinidade entre muito do saber GD e as tradições do Islã.

Por que a localização geográfica teria alguma importância em questões independentes de tempo e espaço? Obviamente, ao considerar o Absoluto, isso não pode ter nenhum valor, a fonte de tudo está sem qualidades; mas aqui se trata de um mundo intermediário entre a manifestação e o inapreensível; e toda experimentação — para não falar de mitologia e tradição popular — indica que alguns lugares favorecem seus funcionamentos enquanto outros não.

Moina contou a Yeats que um dos professores de seu marido era um homem de ascendência escocesa residente no continente, que ela só conhecia por seu lema mágico — com as iniciais E.L.S. (= E Lux Septentrione, Luz do Norte?). Nenhum dos Chefes revelou seus nomes mundanos aos Mathers's. Este, que teve algum contato com Kenneth Mackenzie, possivelmente quando este último visitou Eliphas Lévi na Paris do início dos anos 1860, não era um dos Chefes Mais Altos, mas alguém menos augusto, um mensageiro deles, talvez. Mathers em nenhum lugar afirma que seus Chefes eram apenas três nem que Eles invariavelmente usavam corpos masculinos. Ele implica que havia pelo menos vários deles e que alguns pareciam estar em jovem maturidade e alguns na velhice.

Quando René Guenon escreveu que influências semelhantes estão por trás de todos os movimentos ocultistas dos últimos cem anos na Europa, "dos quais seus líderes nada sabem, sendo eles mesmos as ferramentas inconscientes de um poder superior", ele estava expressando em palavras menos vívidas o que Yeats escreveu em A Dupla Visão de Michael Robartes com uma noção clara do caráter formidável de seu tema?

"Constrangidos, acusados, confusos, dobrados e desdobrados
Por essas mandíbulas e membros de madeira articulados,
Eles próprios obedientes,
Desconhecendo o mal e o bem,

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Obedientes a algum sopro mágico oculto.
Eles nem mesmo sentem, tão abstratos são eles,
Tão terríveis além de nossa morte,
Triunfo que obedecemos."

A tradição na Europa dos Supérieurs Inconnus remonta além de Madame Blavatsky e seus Mestres aos fundadores de fraternidades maçônicas como Martinez de Pasqualli (m. 1774) e Louis-Claude de Saint-Martin (1743-1803). Antes mesmo destes, a Strikte Observanz de von Hund (1722-76) tinha seus Super-homens Desconhecidos. Talvez todos esses tenham uma relação não causal com os Bodhisattvas do Budismo Mahayana, seres cujo avanço espiritual os prepara para uma vida além do alcance deste mundo, mas que, no entanto, optam por permanecer dentro de sua ambiência, geralmente mais ou menos escondidos, para auxiliar o desenvolvimento da humanidade. Embora tais doutrinas tenham sido popularizadas pela Teosofia de Madame Blavatsky, elas não se originaram com ela: lembre-se que os pais fundadores da GD e muitos de seus primeiros adeptos não eram apenas membros da Sociedade Teosófica, mas também maçons. Não é necessário invocar os Bodhisattvas ou qualquer outro conceito oriental para explicar os Mestres ou os Chefes Secretos, uma vez que Eles eram tradicionalmente pertinentes à Maçonaria, como a própria Madame Blavatsky estava bem ciente.

Supondo, entretanto, que os Chefes Secretos da GD têm uma realidade objetiva (seja lá o que isso signifique) comparável à de um Bodhisattva, isso não significa que Eles sejam idênticos aos Mestres Teosóficos ou aos Supérieurs Inconnus Martinistas. Cada fraternidade oculta teria seus próprios 'Guardiões Divinos', alguns mais exaltados que outros, mas todos 'obedientes a algum sopro mágico oculto'.

Em janeiro de 1971, a revista Prediction publicou um artigo meu ilustrado por uma pintura de Moina de seu marido. Uma carta apreciativa de Doreen Valiente apareceu na revista em março seguinte, na qual ela sugeriu que seria difícil imaginar alguém tão jovem quanto Mathers criando seu elaborado sistema oculto sem a ajuda de contatos de plano interior. Se esses contatos são conhecidos como os Chefes Secretos, uma explicação é sugerida para algo que de outra forma seria difícil de explicar.


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CAPÍTULO QUATRO

Imagens

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Em 18 de dezembro de 1967, uma pintura de Mathers por sua esposa chegou da Escócia em minha casa de campo. Uma parente da Sra. Weir a encontrou ao ordenar madeira em preparação para uma mudança de casa e se ofereceu para enviá-la a mim em vez de colocá-la em uma fogueira. É desnecessário dizer que fiquei encantada em aceitar: muito material do GD já pereceu pelo elemento Fogo, ou se perdeu ou danificou pelas devastações de outros elementos.

Tendo apenas a lembrança mais nebulosa dos meus dias de estudante do retrato que vi na sala de desenho da Sra. Weir, foi com alguma emoção que agora rasguei suas embalagens! Parecia que eu estava rasgando um Véu, como na Cerimônia do Portal. Das sombras, "o rosto magro e resoluto" das Autobiographies de Yeats olhou para fora. "O rosto de um anjo", foi minha primeira impressão: anjo como mensageiro, talvez, ou Michael Archangel, líder dos exércitos celestiais. Em uma onda de emoção estranha, beijei os lábios do retrato; então, agachando-me ao lado dele, comecei a chorar. Eu me apaixonei à primeira vista, não apenas por uma imagem, mas pela representação de alguém literalmente fora deste mundo, em vários sentidos diferentes — o que poderia estar mais distante da realidade mundana? A expressão do rosto me surpreendeu intensamente: até então, a partir de relatos de Mathers por pessoas que o entendiam de maneira imperfeita, passei a pensar nele como dominador e "difícil". Ele não parece assim, aqui; ele parece alheio ao mundo, compassivo, profundamente compreensivo, um pouco triste, talvez precariamente equilibrado, mas transparentemente sincero, determinado, mas não autocrático. Este é o "místico maquiavélico da Rue Mozart" de Crowley?

Durante os dias seguintes, a figura pintada mudou de anjo para cavaleiro; mais tarde vi nele o rosto de um mártir. Na noite de 22 de dezembro, realizei um ritual do solstício de inverno em sua presença,

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dedicando a Deo Duce Comite Ferro uma espada mágica. Senti uma resposta correspondente das esferas sutis enquanto meditava sobre o significado da revelação da pintura de si mesma nesta temporada — após anos de ocultação e meio século depois da morte de seu sujeito. Se ele desde então chegou a qualquer um dos céus de Dante, certamente deve ser o quinto, lar de heróis cavaleirescos, Cavaleiros Templários e devotos de Mitra. Por uma instância assustadora de sincronicidade — termo de Jung para conexão não-causativa — o esqueleto consonantal do nome Mathers é o mesmo que o de Mithras; MTHRS. A redução de uma palavra a este esqueleto é o primeiro passo para calcular o número oculto dentro dela, seja por Gematria, Notariqon ou Temura, os três métodos em que Mathers dividiu a Cabala Literal. Em ambos os nomes, o número resultante é 940, reduzível a 4; os numerologistas podem fazer disso o que puderem.

Da presença viva deste retrato, os olhos seguem você, sua expressão mudando de dia para dia. Às vezes eles parecem severos, às vezes um sorriso salta deles e brinca ao redor da boca. Mesmo levando em conta o fato de que é obra de uma esposa adoradora, ainda é a semelhança de um personagem notável. Ele irradia algo daquela Unidade de Ser que Yeats, em A Vision, descreve como o objetivo de vidas repetidas; a artista penetrou no âmago da individualidade de seu modelo, resolvendo todos os discordâncias de personalidade menores — como entre o aristocrático e o pobre-gentil, o sensível e o truculento, o erudito e o meio-educado. Tais discordâncias atormentaram suas relações com seus adeptos, muitos dos quais tinham vantagem sobre ele em relação a um background seguro.

Mathers está vestido com o nemyss listrado de vermelho e verde e o manto vermelho de um Imperator GD, abaixo do qual uma túnica branca com uma faixa de pescoço vermelho ou camiseta por baixo é apenas visível. Ele está sentado em uma pose hierática, as mãos dobradas sobre o cabo de uma espada ritual incrustada com o que parecem ser esmeraldas e rubis; as linhas referentes a Paracelso de um poema, Du Haut de Montserrat, de Georges Bataille e do pintor Andre Masson, que cito na página de título, poderiam ter sido escritas para isso. Eu traduzo:

'... suas duas mãos descansando
Na espada da sabedoria
O íntimo das estrelas e gemas

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Apaixonado pelas profundezas da humanidade
E do ventre universal.’

Um anel de mago no primeiro dedo da mão direita ostenta uma grande pedra transparente que é tanto verde quanto carmesim, talvez uma alexandrita — embora um espécime deste tamanho seria extremamente valioso. Nota-se as mãos grandes — e as orelhas grandes: a direita parece ser o que era chamado de 'orelha de couve-flor', legado frequente do estande de boxe. No início da vida, Mathers pegou boxe para se exercitar, assim como Yeats fez esgrima.

Quando publiquei pela primeira vez uma fotografia do retrato (Prediction January, 1971), um dos vários leitores que escreveu sobre ele para o Editor comentou que "quase fala — como se estivesse tentando impactar alguma mensagem espiritual através dos anos". Outro ficou impressionado com seu "ar de esplendor real combinado com dignidade sacerdotal", enquanto ainda outros notaram uma série daquelas imagens secundárias que formam o conteúdo latente de qualquer imagem, mas variam muito de uma para outra em seu grau de insistência. De acordo com os correspondentes que notaram estes, predominam figuras egípcias — a Esfinge, Ísis, Thoth; mas outros veem na aura de Mathers antigos caldeus ou assírios, e cabeças pensadas para serem aquelas de seus Chefes Secretos; "um brilho assustador" sobre sua cabeça aparece para outros novamente, ou sigilos goéticos parecem se aglomerar ao seu redor. Eu seria o último a denegrir a sensibilidade que capta tais imagens secundárias — elas podem ser um meio de entrada nos planos mais sutis da consciência; mas eu sugeriria que o jogo de luz, especialmente em superfícies irregulares, pode trazê-las à tona, e eu já estava ciente das propriedades proliferas do retrato a esse respeito. Ele tem seus próprios humores: o traje do modelo muda, sugerindo épocas e culturas anteriores e insinuando, talvez, as encarnações anteriores do modelo. Às vezes, ao passar perto da parede onde o quadro está pendurado, senti uma sensação de calor emanando dele, que não pode ser explicada pelo senso comum. Muitas vezes evoca curiosidade e admiração de pessoas ignorantes de sua proveniência que, ao vislumbrá-lo, são atingidas por alguma qualidade que não conseguem definir.

O estilo da pintura mostra uma influência dos Pré-Rafaelitas e de G. F. Watts. As dimensões da tela são 65 x 98,5 cm.; se este é (ou foi) um tamanho regular para cavaletes de tela de madeira

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na França, sugere que a pintura é posterior ao ano de 1891, quando artista e modelo se estabeleceram em Paris. A pintura não é datada: meu palpite é meados dos anos 90, mas qualquer época durante a década é possível — ela mostra Mathers com cerca de quarenta anos, idade que ele teria alcançado em 1894. Perto do canto inferior direito, o nome "Μ. MacGregor Mathers" na caligrafia de Moina pode ser decifrado.

Após anos de negligência, é provável que uma pintura a óleo esteja em mau estado e, quando esta chegou até mim, a tela tinha sido rasgada em um ou dois lugares, reparada de maneira inexperta pela parte de trás e repintada. O óleo escurecido tendia a obscurecer a cor original e uma sobre-pintura acastanhada cobria grande parte da superfície, escondendo alguns detalhes do regalia; por exemplo, as listras do nemyss, o anel mágico e a coroa de aço eram pouco distinguíveis. Moina os sobrepintou antes de sua morte em 1928, sentindo que tais representações poderiam infringir seu voto de sigilo? Ou isso foi feito por alguém motivado por escrúpulos semelhantes, mas muito mais recentemente? Um artesão a quem deleguei a limpeza e a restauração favoreceu a última opinião; tendo passado vários dias eu mesmo removendo a sujeira da superfície, decidi que precisava de atenção profissional e, posteriormente, fiquei satisfeito com o resultado. Acredito que agora pode iluminar qualquer um que deseje visualizar como Mathers deve ter parecido.

Há alguma semelhança rastreável entre a aparência de Mathers e a de qualquer membro do clã MacGregor? Eu acredito que sim: compare o retrato de Moina de seu marido com a pintura que reproduzo de Rob Roy MacGregor. Embora não assinada e não datada, esta imagem foi transmitida como uma herança por gerações em um ramo do Clã. Considerando que o rosto do Cateran é aqui representado como muito mais carnudo do que o de Mathers, as proporções da estrutura óssea são semelhantes. O queixo longo, os olhos profundos sob sobrancelhas niveladas, o nariz curto e protuberante — todos poderiam ser um protótipo para o próprio Mathers. Por mais fantástico que possa parecer que tal semelhança possa persistir ao longo dos séculos, a endogamia inseparável do sistema de clãs às vezes torna isso possível. Eu sei, pela minha própria família, como características típicas reaparecem em primos tão distantes a ponto de serem quase não relacionados.

Os retratos de Mathers são poucos e o de Moina é a única

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pintura conhecida dele. Existem duas fotografias: a que foi reproduzida no livro de John Symonds, The Great Beast (1951), vem, imagino, do artigo de Jules Bois, L,Echo du Merveilleux, que publicou artigos ilustrados em 1900 sobre o então recente espetáculo oculto de Mathers, os Ritos de Ísis. Mostra-o no traje de "Sumo Sacerdote Ramsés" que ele usava para essa performance. A outra fotografia (de um dos tesouros de material GD de Ellie Howe), que apareceu pela primeira vez em The Scotsman de 21 de agosto de 1971, mostra Mathers vestido como tenente dos Voluntários da Primeira Infantaria de Hampshire.

Fui informado de que uma pintura de três quartos do comprimento de Moina usando um manto azul (o de Praemonstratrix no Templo de Paris, Ahathoor?) costumava ser exibida na Loja A:.0:. que ela estabeleceu em Londres e na qual a Sra. Weir a sucedeu como chefe. Provavelmente era um auto-retrato pintado aproximadamente na mesma época que o do marido — embora onde, ou se, ainda existe, eu não faça ideia. Pelo que posso dizer, não existem representações dela além da pequena cabeça fotografada que publiquei pela primeira vez na edição de Prediction já mencionada e agora reproduzo aqui, as fotografias de Echo du Merveilleux e uma impressão muito leve a caneta e tinta dela com Mathers apresentando os Ritos de Isis que ilustravam um artigo em The Sunday Chronicle de 19 de março de 1899. Este artigo também se refere a "desenhos coloridos de Isis, Horus, Nephthys e Anubis" como parte da decoração do palco; fotografias destes painéis, cada um medindo 72 x 114 cm, acompanharam meu artigo sobre Mathers em Man, Myth and Magic, nº 80. Os nomes deveriam ler Osiris, Horus, Nephthys e Harpócrates a menos que dois deles sejam obras diferentes, mas há pouca dúvida sobre a identidade do conjunto. Embora nenhum deles seja assinado ou datado, Edward me disse quando me deu que eram obras de Moina e eram pendurados em uma ante-sala do Templo Ahathoor, para construir a atmosfera da tradição egípcia. Uma etiqueta na parte de trás de um deles pertence ao Garde-Meuble Du Colisée, 5, Rue du Colisée, onde sem dúvida eles foram armazenados durante uma das muitas mudanças de casa dos Mathers. Os painéis são pintados em óleo sobre tela, com o regalia dos deuses destacado por tiras de papel colorido coladas. Eles fornecem um exemplo inicial da técnica de Colagem, aclamada como uma descoberta e desenvolvida pelos surrealistas cerca de trinta anos depois, e em voga mais ou menos desde então. Chamei a atenção para o uso desta procedimento por Moina

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na resenha "Fantasmagie", No. 31 (Bruxelas 1971) em um "Aperçu sur l'origine du Collage". Mathers escreve sobre "a pintura egípcia de G. H. Soror Vestigia!" em uma de suas cartas aos discípulos recalcitrantes em Londres, deixando claro que estava entre as decorações das instalações da Segunda Ordem de Isis-Urania; pode ter sido um daqueles na série anterior.

A figura do Mago no desenho assinado pelas iniciais de Moina, que serve como folhas de rosto para "The Book of the Sacred Magic of Abra-Melin the Mage", lembra, não surpreendentemente, a aparência do próprio Mathers. A regalia aqui são provavelmente aquelas que ele usava quando realizava rituais do tipo Abra-Melin, que, sendo derivados de um sistema mágico diferente da GD, requerem seus próprios adereços. (No entanto, a coroa ornamentada com três pentagramas é idêntica à mostrada no retrato de Mathers usando vestes GD.) As joias triangulares nos diademas dos espíritos assistentes os proclamam ser elementais de Ar, Água e Terra; os do quarto tipo usam um octógono em vez do triângulo vertical significando Fogo que se esperaria. Mathers declarou que a forma do baú sendo transportada pelos elementais da Terra foi alterada por alguma agência não humana enquanto sua esposa estava desenhando: talvez isso fosse um exemplo de automatismo no sentido surrealista, uma rendição relaxada a um processo automático — neste caso, Grafomania ou "deixando uma linha ir passear".

Moina pintou os desenhos elaboradamente coloridos nas superfícies dos móveis do templo necessários para a cerimônia de Adeptus Minor, conforme realizada pela Segunda Ordem de Isis Urania. Isso inclui uma abóbada com piso, teto e lados com dobradiças, cada um dos últimos medindo 5' X 8', um sarcófago em tamanho real ou Pastos e um Altar. Até mesmo entrar em tal estrutura com suas paredes internas revelando um sistema intricado de "cores piscantes" deve ter sido uma experiência esotérica — assim como, de fato, a pintura dela; e quanto mais seria o ritual ou meditação dentro dele? Se o Templo Ahathoor em Paris tivesse uma abóbada similar dos Adeptos — e sem uma, não poderia ter avançado seus estudantes para a Segunda Ordem — então Moina deve ter pintado isso também, ou pelo menos projetado e supervisionado sua construção. Acessórios semelhantes foram certamente usados ​​mais tarde em sua Loja A:.O:. e ela teria sido responsável por fazer também esses, a menos que ela tenha trazido os móveis de Ahathoor da França? Mas

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não acho que ela fez isso, já que Ahathoor ainda estava em operação na época em que conheci a Sra. Weir, e não fechou até 1939. Edward costumava reclamar de como era uma tarefa montar a mise-en-scène necessária, particularmente a Abóbada, para os rituais de Adeptus Minor e desmontá-la depois; membros da A:.O:. tinham que fazer isso em períodos em que não estavam alugando um estúdio no qual podiam deixá-lo em posição mais ou menos permanentemente. Caso contrário, era armazenado em um galpão no jardim da Sra. Weir e transferido quando necessário para a sala do último andar usada como Templo. Esses móveis da A:.O:. foram consignados ao holocausto ordenado pela Sra. Weir, por instruções dos Chefes Secretos, que ocorreu nos terrenos da casa de campo de sua filha em Hertfordshire no final de 1939. A razão dada para essa destruição foi o perigo em tempos de guerra de material secreto cair nas mãos erradas; mas o poder dos Chefes Secretos não se estende para guardar e preservar tal material, se assim o desejarem? Ou essas 'instruções' não foram mais um consenso de seu próprio julgamento e intuição que, por mais notáveis que possam ter sido, não eram infalíveis? Se o Cardeal Manning teve dificuldade em distinguir um 'teste' de uma 'condução', não pode ser igualmente complicado distinguir os próprios impulsos dos comandos dos Chefes Secretos? Há também uma possibilidade mais sinistra: alguns Chefes Secretos podem muito bem ter inspirado essa destruição, mas — seriam eles do GD?





PARTE II

BIOGRAFIA

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CAPITULO CINCO

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Vestígios

Como era a mulher que desenhou e pintou as obras descritas acima, que poderia ter produzido outras mais geralmente aceitáveis se o exercício de faculdades ocultas não tivesse direcionado seu talento para caminhos diferentes? O lema mágico de um ocultista sempre revela um vislumbre de sua Verdadeira Vontade: o de Moina era Vestigia Nulla Retrorsum (= Eu nunca retraço meus passos). Uma vez embarcada em um curso de ação ou um modo de vida, ela continuaria sem olhar para trás; nem se entregaria a arrependimentos e recriminações.

Ela nasceu em 1865. Annie Horniman, filha do fundador do Museu Horniman, em uma carta do final dos anos 1930 para o Dr. Oliver Edwards recordando seus dias de estudante, diz que Moina era uma Taureana do Sol, portanto, sua data de nascimento deve ter caído entre 21 de abril e 22 de maio. Michael Gabriel e Kate Bergson, seus pais, eram um casal judeu-irlandês que emigrou de Dublin para Paris. Por que Moina, quando aos quinze anos decidiu estudar arte, escolheu Londres? Sendo bilíngue, ela poderia ter trabalhado facilmente em Paris; foi para fugir de casa? Pode ser significativo que o professor de Slade em Londres durante todo o curso de seus estudos fosse um francês, Alphonse Legros, que ocupou o cargo de 1876 a 1892. Ele costumava aconselhar os alunos a completar sua formação em Paris e era ele próprio um seguidor de Courbet e Delacroix. Ele ajudou a construir a reputação da Escola para o desenho como uma base indispensável em todo trabalho artístico. Na época, a influência de Ruskin estava se espalhando e Rossetti ainda estava (apenas) vivo. Moina, talentosa e entusiasmada, trabalhou na Gower Street de 1880 a 1886, ganhando uma bolsa de estudos muito necessária em 1883 e quatro certificados para desenho em várias ocasiões.

Seus colegas de estudo a chamavam de "Bergie". Quando ela terminou seu curso, ou talvez até antes, ela compartilhou um estúdio com uma Miss

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Offor na 17, Fitzroy Street. O prédio do século XVIII foi desde então substituído por alguma construção sem caráter de concreto e vidro como as que agora tornam Londres monótona. Nas proximidades, algumas das antigas fileiras ainda permanecem e muitas de suas casas têm uma grande sala no térreo se projetando na parte de trás. O que fica no número 17 foi alugado para alguns dos rituais da Primeira Ordem do GD, mas a iniciação de Yeats e outros ocorreu no estúdio de Bergie em um dos andares superiores. Hoje a Torre do Correio que ofusca a rua poderia, suponho, ser vista como uma projeção do poder de Hermes, aqui suplantando o de Isis-Urania.

Um dia em 1888, enquanto se imergia na arte egípcia no Museu Britânico, Bergie conheceu MacGregor Mathers e o resultante coup foudre[2] selou seu destino. Seu destino, não menos — como o Mago Zoroastro no poema de Browning, ele havia 'encontrado sua própria imagem': ao longo de sua vida, Moina permaneceu para ele um Eidolon, possuído e possuindo. Para ela também Mathers incorporou uma imagem ecoante — a de seu irmão mais velho, Henri Louis Bergson (1859-1941). Compare sua pintura de Mathers com a fotografia de retrato de Gerschel que serve como frontispício para Henri Bergson (1914) de Algot Ruhe e Nancy Margaret Paul: entre os dois homens há uma semelhança definitiva em traços e expressão — provavelmente em coloração também, já que ambos eram morenos.

A fotografia de Moina que reproduzo deve ter sido tirada em seus últimos vinte anos e, portanto, é contemporânea ao seu retrato de Mathers. Os cabelos elásticos, a pele brilhante e a expressão dos olhos azuis profundos ainda transmitem vividamente. Em um corredor da Casa Antony, Torpoint, está pendurada uma pintura de Honoria Butler, mais tarde Duquesa de Ormonde, uma beleza famosa na sociedade de Dublin durante os primeiros anos deste século. Seus cabelos nublados e olhar intenso lembram as belezas do Amanhecer Dourado.

Minha cópia da fotografia de Moina era uma posse preciosa da Sra. Weir. Outra cópia sempre ficava no escritório de Edward Garstin ao lado da pequena cruz de ébano cercada por rosas escuras que, acredito, todos os membros de sua Loja recebiam. Lembrando dela, Edward costumava dizer: "Ela era a mulher mais doce" e a maioria das pessoas que a conheciam concordava: Gerard Heym escreveu sobre ela como "encantadora e notável". Yeats dedicou A Vision (1925) a ela — como 'Vestigia': Depois de um longo silêncio, o contato deles foi renovado quando ela escreveu

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para ele no ano anterior sobre certas declarações na primeira edição de The Trembling of the Veil. Outras referências em suas obras reforçam a visão de Edward. Até Crowley, embora mais tarde insinuasse, entre muitas outras coisas, que ela não era legalmente casada, ainda assim precedeu seu Carmen Seculare (1901) com esta inscrição florida:

Eu dedico
na terra meu poema
para a
CONDENSA DE GLENSTRAE
no céu minha visão
para a
Alta Sacerdotisa de Nossa Senhora
ISIS

Quando Moina encontrou Mathers — seja nas Galerias Egípcias ou, como Annie diz, na famosa Sala de Leitura do Museu Britânico — ele já havia abrigado sonhos jacobitas, além do conhecimento de civilizações antigas que sempre coloriam seu pensamento. Foi ele quem mudou seu nome, até então Mina (ou Minna, como Annie escreve) para Moina — pronunciado Mo-eena — para dar a ele um som mais das Terras Altas. Por sua vez, ela o chamou de Zan, vendo nele uma semelhança com Zanoni, herói do romance homônimo de Sir Edward Bulwer-Lytton (1845). Ela se dedicou a ele como Viola, heroína de Bulwer-Lytton, ao mágico. Até o encontro fatídico do casal, Moina (ou Bergie) e Annie (ou Tabbie) tinham sido amigas íntimas. A ascendência de Mathers sobre Bergie, que até mesmo foi chamada de obsessão, veio entre elas e um tom ácido é perceptível nas cartas de Tabbie quando elas mencionam ele. Ela dificilmente seria humana se não sentisse nenhum ressentimento, racionalizado como preocupação com a carreira de Bergie na arte. Sem sugerir que Tabbie era lésbica, sinto que o ciúme não reconhecido foi parcialmente responsável por suas disputas subsequentes com Mathers.

Seu casamento com Moina ocorreu graças ao seu cargo na biblioteca do Museu Horniman, que parece ter vindo com acomodações nas proximidades: em 1959, uma grande vila Vitoriana de tijolos vermelhos

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no terreno do Museu foi apontada para mim como o lugar. Ele havia sido gravemente danificado no bombardeio de Londres e ainda estava sem reparos, com portas e janelas cobertas. Suponho que este seja o Stent Lodge. Dr. MacGregor Reid me disse que quando ele esteve pela última vez na sala usada por Mathers como um Templo, o chão ainda tinha vestígios pintados de um círculo mágico. Eu queria ver este relicário de um breve, mas colorido arrendamento, mas os oficiais do Museu se recusaram a me emprestar a chave, dizendo que a estrutura era insegura. Eles estavam com medo de fragmentos caindo ou da aura GD ainda se agarrando ao seu tecido desgastado?

A própria cerimônia de casamento foi algo de uma ocasião GD, sendo conduzida pelo Reverendo William A. Ayton, um dos membros mais antigos de Iris-Urania, em ambos os sentidos da palavra. Sua esposa, Anne, e John W. Brettle, ambos também membros, foram as testemunhas. Aconteceu em 16 de junho de 1890, na igreja onde Ayton era vigário em Chacombe, uma pequena vila perto de Banbury na fronteira de Oxfordshire-Northamptonshire. Moina havia ficado com os Aytons nas semanas anteriores para estabelecer a qualificação residencial necessária para os Banns. Ayton era "o clérigo de Oxfordshire" cujos experimentos alquímicos, conduzidos na adega da reitoria, Yeats fez piada em sua Autobiografia. A opinião do amigo de Bulwer-Lytton, Kenneth Mackenzie, era diferente — ele considerava Ayton "um profundo ocultista". Na Chacombe Priory, perto da reitoria, uma capela em ruínas fundada no século XII para os Cônegos Regulares Agostinianos dá atmosfera ao lugar; este edifício, mais antigo do que qualquer coisa em Oxford, tem uma das janelas envidraçadas mais antigas do país.

Quando Mathers perdeu seu posto no Museu, ele voltou com Moina para Londres e alugou quartos (ou um quarto) na Percy Street, fora da Tottenham Court Road. Lembro-me de ouvir um rumor quando estava no Slade sobre um apartamento nesta rua com "diagramas mágicos negros" nas paredes que davam pesadelos a uma sucessão de inquilinos. Poderia ter sido o gîte[3] dos Mathers? Eles logo migraram para a França a pedido dos Chefes Secretos, como Moina diz em seu Prefácio à segunda edição de The Kabbalah Unveiled (1926). De 1891 em diante, eles viveram em vários endereços diferentes em Paris até se estabelecerem por alguns anos em 87, Rue Mozart, Auteuil. Eles não parecem ter feito muito contato com as relações de Moina; 'Pierre

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Victor' (Victor Barrucand: L'Ordre Hermétique de la Golden Dawn, Nos. 2 & 3, La Tour St. Jacques, 1956) diz que ela estava en froid avec sa famille. Além das questões de um casamento "misto", é compreensível que quase qualquer família teria dificuldades em ver em Mathers um "parente" aceitável, já que ele estava sem meios ou emprego regular, e sem interesse em obter qualquer um dos dois. Eles não poderiam ser esperados para dar qualquer importância à sua missão oculta: eles só poderiam prever uma existência mão a boca, com seu escamoteamento concomitante, se estendendo diante do par infeliz. Mesmo quando, por volta do início do século, o irmão de Moina, Henri, comprou a grande Villa Montmorency na beira do Bois de Boulogne, a uma curta distância da Rue Mozart, ela viu pouco dele; ele era de certa forma um recluso em qualquer caso, e por volta dessa época ela e Mathers foram obrigados a mudar de casa.

Henri passou parte de sua infância na Inglaterra e falava inglês fluentemente, mas sua educação, que se especializou em Clássicos, foi principalmente francesa depois que a família se estabeleceu em Paris. Somente muito mais tarde ele adotou a nacionalidade francesa. Ele se tornou um Professor na Sorbonne e, como autor de L'Évolution Créatrice, Le Rire e muitas outras obras filosóficas, o fundador da Escola Vitalista. Embora ele estivesse interessado o suficiente em questões do sobrenatural para experimentar o hipnotismo como um jovem acadêmico em Clermont-Ferrand e para se tornar Presidente (1913) da Sociedade para Pesquisa Psíquica em Londres, a magia praticada na GD não o impressionou. É possível que ele tenha adotado essa atitude pouco simpática, em parte em desaprovação ao casamento de sua irmã: uma pergunta sobre ela dirigida a ele na década de 1930 por Dr. Edwards permaneceu sem resposta.

Embora as premonições de insegurança financeira estivessem justificadas, não há evidências de que Moina ela mesma se sentisse vítima de sua vida com Mathers: se sua confiança nos Chefes Secretos era tão firme quanto a dele, ela deve ter acreditado que as necessidades mínimas seriam atendidas. Por outro lado, sua intensa lealdade a "meu marido, amigo e professor", como ela o chama de forma comovente no prefácio já citado, tendia a empobrecer a expressão de sua vida emocional mais ampla, não apenas em relação aos seus parentes, mas para alguns de seus amigos. Essa tendência se tornou um afastamento em relação a alguns membros da GD quando a insatisfação começou a fermentar entre eles.

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Embora Moina tenha desistido de muito — voluntariamente, sem dúvida — por seu relacionamento com Mathers, ela conseguiu manter algo que valorizava muito — sua virgindade. Pelos sentimentos expressos em uma carta a Tabbie (citada por Ellie Howe) quando ela já estava casada há mais de cinco anos, é óbvio que um casamento sem sexo como o dela deve ter parecido um privilégio. A mera ideia do ato sexual a enchia de repulsa — embora ela admitisse que "uma coisa natural não deveria perturbar tanto". Sem se aprofundar em psicanálise, não se pode deixar de suspeitar que algum incidente fortemente reprimido na primeira infância deve ter sido responsável, provavelmente uma abordagem sexual de um parente masculino mais velho em contravenção aos tabus usuais.

Ela acreditava, talvez corretamente, que Mathers sempre compartilhou esse sentimento e continuou no mesmo estado de inexperiência sexual que ela. Pelo que ela diz, sua associação mútua permaneceu "platônica", apesar de uma vida juntos da intimidade que a pobreza dita; e não havia casos à parte. Não duvido que ela tenha sido sincera, se pervertida pelas noções de hoje, nessas reações, mas me pergunto se elas sempre foram as de Mathers, não importa o que ele possa ter dito a ela. Uma esposa muitas vezes tem uma capacidade de ilusão onde as inclinações de seu marido estão em causa: enfrentar os fatos pode ser tanto muito doloroso quanto muito inconveniente. Como ela poderia ter certeza de que em todos os momentos antes de conhecê-la, a vida sexual dele tinha sido tão inexistente quanto a dela? Ela queria acreditar nisso: mas se pudéssemos ver uma carta franca sobre o assunto (supondo que ele já tenha escrito uma) para um de seus amigos homens, como paralelo para a dela para Tabbie — !

Anos antes da chegada da "sociedade permissiva", sua atitude não teria parecido tão anormal como parece hoje. Casamentos celibatários eram defendidos em alguns círculos teosóficos, e casais católicos que levam a sério o ensino de sua Igreja sobre contracepção ainda são instados a praticar em algumas circunstâncias um ascetismo similar. O casamento celibatário pode fazer o pior ou o melhor de dois mundos diferentes, de acordo com o ponto de vista e as capacidades de cada um? Para Mathers, constituía uma das disciplinas impostas pelos Chefes Secretos, selada por seu próprio voto e estendida em certo grau também a sua parceira — uma disciplina que ela estava mais do que pronta para aceitar.

Muitos presumiriam que, para consentir (ou imaginar?)

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tal comando, Mathers deveria ser impotente, pelo menos com mulheres. Eu mesmo não penso assim, mas seja como for, o casal concordou com o pacto no início de sua parceria. Se o primeiro contato definitivo de Mathers com seus Chefes Secretos ocorreu aproximadamente na data de seu encontro com Moina, pode-se dizer com alguma confiança que o período assexual de sua vida também começou então, se não antes. Depois disso, obviamente não havia base para as calúnias no romance de Crowley, Moonchild (1929), onde ele acusa Mathers — como 'Donglas, Conde de Glenlyon' — de forçar sua esposa a fazer um aborto cada vez que ela engravidava.

Se o sexo não significava nada para Moina e o dinheiro pouco, e quanto à arte? Ela teve que abandonar qualquer ideia de uma carreira independente nessa direção, para se manter ocupada não apenas com as técnicas da própria magia, mas com as técnicas da arte a serviço da magia. Móveis do templo para serem decorados tanto em Paris quanto em Londres, todos os tipos de indumentária mágica para serem projetados e fabricados, para não falar de diagramas para instrução, ocupavam seu tempo e energia. Em uma carta a Yeats de cerca de 1899, quando ela estava trabalhando em alguns designs celtas, ela permite-se um cri de coeur: "Estou rezando pelo dia em que posso realmente me concentrar em algum trabalho artístico."

Em algumas das poucas cartas dos Mathers para Yeats que sobrevivem entre os papéis pertencentes à família Yeats e que o Dr. G. M. Harper gentilmente me permitiu ver, Moina está traduzindo os escritores do Renascimento Celta para o francês. Ela terminou a história de 'Fiona Macleod' Ulad (como Tristesse d'Ulad) em 1898; quando foi musicada por um compositor francês — me pergunto quem? — ela projetou uma capa colorida para a partitura. O editor de Paris, Bailly, a encorajou, mas se ele a contratou é outra questão: ela queria traduzir The Land of Heart's Desire e The Countess Kathleen, também The Awakening of Angus Ogue de 'Fiona'. Yeats havia sugerido algumas ilustrações retratando um tipo 'Turaniano' (cigano?) de beleza feminina; Moina diz que admira o tipo de Maud Gonne, mas acha que não é estranho o suficiente (muito clássico?); O tipo de Florence Emery pode ser melhor. Uma se pergunta se ela levou algum desses projetos longe o suficiente para trazer a ela satisfação estética ou renda.

Mais distração ainda para a sua arte foi o caráter exigente de suas habilidades clarividentes, sem as quais seu marido não teria sido

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capaz de penetrar o Véu. Seu trabalho com ele em rituais, em demonstração aos estudantes, e em experimentos ocultos do tipo mais rigoroso, fez a primeira reivindicação sobre sua energia de modo que pouco sobrou para seu próprio trabalho criativo. Ela deve verdadeiramente ter acreditado que 'dividiu uma alma' com ele, como Yeats escreveu sobre si mesmo e Maud Gonne.

Reproduzo, sem correção, um manuscrito de Moina que me foi dado por Mrs. Weir. Parece datar do final dos anos 1890, quando ela e Mathers estavam estudando mitologia celta com a intenção de estabelecer uma Ordem lateral na Irlanda, O Castelo dos Heróis.

DO CAPÍTULO 26 DE CUTHULAIN.
A Árvore Sagrada de Avelã
No jardim encantado no coração da verde Banba, habitam os Tuatha De Danaan. [Banba é uma das três deusas, Fohla, Banba e Eire; veja História, vol. 1, p. 173.]

No Jardim há uma fonte que nunca deixa de brotar.
Sete avelãs circundam a fonte (deixando-a, as bagas são de cor x). As nozes são as nozes do Conhecimento que revelam o Passado, Presente e Futuro; mas somente os Tuatha Eirenn tinham acesso a esse Jardim, mas não comiam da fruta porque era proibido. A Deusa Sheenan [Sinan] (Shannon), neta de Lear [Lir], o deus marinho, tentou comer da fruta, mas a Fonte se ergueu e a levou embora, e o canal assim formado tornou-se o Rio Shannon.
Diz-se que Cathvah, o arquidruida, comeu das Nozes, então se destacou em Sabedoria. Na época da Queda das Nozes, o grande Salmão, o Yeo Feasa, aparece na Fonte e devora a fruta, mas pelo resto do ano ele vaga pelo vasto oceano e pelos Grandes Rios de Inis Fail [— Este Salmão é maior e mais belo que os outros, cintilando com estrelas carmesim e tons brilhantes.]
Essas sete árvores de avelã = os ramos da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal — cada Planeta é composto de sete.

Os sigilos zodiacais indicando cor são tirados das escalas de cor GD, onde verde-amarelo é atribuído a Virgem, n®, e carmesim a Peixes, ♓. As notas entre colchetes são da mão de Mathers,

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que obviamente baseou-se na infância em um modelo de letra cursiva com uma pronunciada inclinação para a direita. Em contraste, a escrita de Moina é naturalmente ereta com uma postura quadrada e floreios angulares tão vigorosos que alargam a ponta da caneta; no entanto, às vezes muda, tornando-se quase indistinguível da do marido.

A virada do século foi fatal para os Mathers, trazendo consigo cisma, escândalo, litígio e dificuldades financeiras ainda mais agudas. Eles tiveram que deixar sua agradável casa na Rue Mozart e, a partir daí, viveram em vários endereços, embora nenhum por muito tempo: teme-se que cada um fosse um pouco menos confortável que o anterior. Em todas as vicissitudes, a coragem de Moina apoiava seu marido, enquanto sua postura graciosa restaurava a confiança de seus colegas e atraía novos amigos. Juntos, eles continuaram a trabalhar no Templo Ahathoor, nunca abandonando a prática mágica, embora a continuassem com mais ênfase na discrição do que antes.

Quando ela retornou a Londres após a morte de Mathers, viveu no número 266, King's Road, Chelsea, então um terraço da Regência chamado King's Parade com jardins na frente e nos fundos. Este foi demolido no início dos anos 1950 e o local foi usado para um estacionamento de carros até que uma nova estação de bombeiros foi construída lá em 1957. O número 266 pertencia a uma Miss Adeline Elsie Keen que, evidentemente, alugava pequenos apartamentos para mulheres: as outras inquilinas eram Hylda M. Atkins, Gabrielle Wellesley-Colley e Louisa Woodforde.

Não sei se alguma delas estava associada a Moina na GD, mas em 1919 ela estabeleceu uma Loja A:.O:. que trabalhou com algum sucesso por nove anos, embora tenha confidenciado a Gerard Heym, que não era membro desta (ou de qualquer) Loja, que sem a direção de seu marido ela se sentia desorientada. Com um ou dois outros amigos, ela se encontraria em Kensington com um certo Frater X., então um jovem com fortes dons mediúnicos, e participaria do que ele chama de "sessões ocultas". Ele me diz que ela não falava de Paris nem tentava fazer contato com seu falecido marido, acreditando que deveria se concentrar no presente — Vestigia Nulla Retrorsum. Ela ainda temia o ataque oculto, sem dúvida como resultado da tensão que ela e Mathers sofreram ao "trazer" o material da Segunda Ordem. Agora, ela visava a comunicação com forças espirituais emanando do plano da Deidade. Frater X. não era um iniciado da Loja A:.O:. e nunca perguntou sobre ela, embora

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soubesse que seus rituais envolviam transe e o uso dos Chamados Enoquianos.

Moina teve os problemas habituais com membros que se mostraram inadequados: Dion Fortune foi um deles, e outro episódio é destacado em Ritual Magic in England (1970) de Francis King, que, enganado pela conta de Dion Fortune, acusou Moina de matar uma Miss Netta Fornario por magia negra. Como os incidentes que levaram à morte de Miss Fornario não ocorreram até cerca de dezoito meses após a própria morte de Moina, a acusação mal vale a pena refutar. Mesmo se a última estivesse viva, os arranhões encontrados no cadáver são menos prováveis de terem resultado de um ataque de Moina na forma de um gato monstruoso, do que de correr nua no escuro sobre um terreno acidentado, o que Miss Fornario fez imediatamente antes de seu colapso. Alguns anos antes dos dias de Busca, acredito que Moina deve ter enterrado o machado com a Sra. Rand, e com Annie Horniman, já que esta última certamente era membro da Sociedade na mesma época: Tabbie e Bergie estavam juntas novamente, finalmente.

Eu entrei na Busca tarde demais para ter visto Moina e não me lembro de Annie Horniman lá; mas outros ex-Buscadores se lembram de Moina como uma personalidade maravilhosa: ela parecia 'uma bruxa', 'uma cigana', 'uma sacerdotisa egípcia', 'uma Sacerdotisa de Isis', como recordado variadamente. (A única voz discordante a descreve como 'uma mulherzinha rechonchuda, não bonita, e excêntrica'.) Quando ocasionalmente aparecia em reuniões, ela falava com uma voz ressonante que dominava a assembleia de modo que se sentia que não havia como negar seu conhecimento. Pragmática em sua abordagem, ela ainda possuía uma grande calma que dava a impressão de poder oculto. Ela parecia mais alta do que sua altura real por causa de sua postura ereta; os vestidos art nouveau e inúmeros colares deram lugar a roupas 'boas', apropriadas, mas de forma alguma exóticas. Seu cabelo havia ficado branco.

A Sra. Winifred Rand — presumivelmente a ser identificada com a Sra. Helen Rand, que foi uma membro precoce da GD — relatou em uma carta ao Dr. Edwards que Moina estava nessa época mais do que nunca sem dinheiro. Ela tentou se sustentar fazendo retratos, como havia feito em intervalos em Paris — embora aparentemente não tenha exibido seu trabalho na França: o Dicionário de E. Bénizet é bastante exaustivo e ela não figura lá. Quando chegou a

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Londres, de acordo com a opinião da Sra. Rand, seu talento havia se deteriorado devido a suas preocupações ocultas e seus esforços foram em vão. Se isso fosse verdade, ela era duplamente afortunada em ser auxiliada nas despesas de vida pela Sra. Weir. A menos que as pinturas de um anjo, de Adão e Eva que costumavam ficar na sala de desenho em Chelsea (ouvi dizer que também havia uma representando um copo e uma adaga — entendo, como implementos mágicos — no mesmo estilo) venham à luz, bem como o autorretrato, então sua pintura de Mathers é o único exemplo de seu trabalho a óleo que sobreviveu. As decorações egípcias — em contorno, cor plana e colagem — pertencem a uma categoria diferente.

Sua saúde começou a falhar no final de 1927 e logo ela estava recusando toda a comida; seria isso uma extensão exagerada do vegetarianismo de seu marido, que se retraiu da destruição da vida? Sua clarividência percebeu que a vida oculta das plantas, discreta e reservada como é, pode ser tão vívida em seu próprio modo quanto a dos animais? Experimentos recentes na ciência (tanto aceitos quanto 'marginais') tendem a substantivar essa ideia. A Sra. Weir e outros de seu círculo tentaram persuadir Moina a comer, mas ela piorou e morreu em 25 de julho de 1928, no Hospital St. Mary Abbot, Marloes Road, W.8.

Seu testamento deixou toda a sua propriedade — dolorosamente pequena em termos financeiros — para seu irmão mais novo Philip, que então tinha um negócio de impressão e venda de livros em Londres, mas depois emigrou com a esposa para os EUA. Seus materiais de Ordem e pinturas já haviam sido transferidos para a guarda da Sra. Weir.

Em uma carta escrita nos anos 1960, Gerard Heym declara Mathers como '... um dos maiores gênios esotéricos que este país já produziu' e acrescenta, 'A esposa de Mathers, a quem conheci superficialmente, foi a maior clarividente do século' — uma apreciação abrangente de uma equipe formidável.


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CAPÍTULO SEIS

Uma Espada: Fato (1)

Lembro-me de um dia nos anos 1950 em que perguntei a Edward Garstin por que ninguém havia publicado uma biografia de Mathers, nem mesmo um breve ensaio sobre ele. Ele respondeu que escrever isso seria uma tarefa impossível, pois os eventos mais importantes da vida de um ocultista acontecem nos planos internos e, portanto, são inacessíveis a qualquer pessoa, exceto àquela que os está vivenciando, ou no máximo a um iniciado de grau semelhante. Reconheci que ele estava ecoando o que Moina diz na primeira página de seu prefácio para The Kabbalah Unveiled. Ele também insinuou que os juramentos de sigilo poderiam impedir a divulgação de eventos, referentes até mesmo à consciência ordinária no nível físico, nos quais tal ser estava envolvido. Tive a impressão de que certos acontecimentos da vida de Mathers foram assim ocultados e que Edward aprovava esse obscurantismo. Percebi que, se ele tivesse alguma pista de que eu pretendia escrever tal biografia, não obteria nenhuma informação direta dele.

No entanto, fiquei cada vez mais convencido de que esse trabalho deveria ser tentado, independentemente das dificuldades. (Afinal, traduzi o A la nue accablante tu de Mallarmé para o verso inglês porque em What is art? de Tolstói a tarefa era considerada impossível.) Mathers mesmo queria ser conhecido como importante, queria que seu trabalho continuasse; então finalmente me propus a coletar quaisquer fatos disponíveis sobre ele. Eu queria apresentar, na medida do possível, uma visão equilibrada do homem e de sua missão oculta — pois era isso que ele acreditava ser sua vida profissional. Achei um reequilíbrio especialmente necessário, pois desde o início do século uma bola de neve de fabricações rolou de Crowley sobre seu mentor de outrora. Ao mesmo tempo, Crowley é um dos poucos fornecedores de material de fonte de primeira geração, ou seja, relatos publicados por pessoas que conheciam Mathers pessoalmente. Tal material é escasso na melhor das hipóteses, mas pode ser resumido da seguinte maneira:

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MOINA MACGREGOR MATHERS. Um prefácio pela viúva de Mather à Quarta Impressão (1926) de The Kabbalah Unveiled fornece alguns fatos sobre sua vida, baseados principalmente no que ele contou a ela. Algumas declarações são questionáveis.

ALEISTER CROWLEY. The Temple of Solomon the King, publicado em The Equinox, dá uma conta tendenciosa de Mathers e do GD. As seções em Nos. I—IV (1909-10) são nominalmente por J. F. C. Fuller, embora escritas com Crowley ao seu lado; aquelas em Nos. V-X (1911-13) são inteiramente de Crowley. Referências esparsas a Mathers ocorrem ao longo da obra de Crowley: seu romance oculto-burlesco, Moonchild (1929), difama vários membros do GD e ST[4], disfarçados de forma tênue, entre eles Mathers. As informações sobre ele em The Confessions of Aleister Crowley (1969) também são mais do que suspeitas. Muitos dos seguidores de Crowley repetiram suas calúnias sem críticas; meu capítulo, Mathers: Fiction, deve dissipar os equívocos resultantes.

W. B. YEATS. Suas Autobiographies (1926 e 1955) e referências a Mathers em algumas de suas outras obras tendem a contrabalançar as escárnio de Crowley. (The Letters of W. B. Yeats (1954) de Allan Wade contém uma breve nota sobre Mathers adicional à informação nas próprias cartas, mas a fonte de seus fatos não é indicada.)

A. E. WAITE. Seu Shadows of Life and Thought (1938) é factualmente inexato, e prejudicado por uma animosidade que ele nem mesmo refreou em um obituário sobre Mathers na Occult Review.

Quanto às fontes de segunda geração, que consistem em escritos publicados por pessoas que nunca conheceram Mathers, My Rosicrucian Adventure (1936 e 1971) de Israel Regardie e sua introdução a The Golden Dawn (1937) mantêm sua fascinação original. The Unicorn (1954) de Virginia Moore traz muitas coisas de interesse, mas mais sobre o GD do que sobre Mathers pessoalmente. Outros escritores empreenderam pesquisas em resposta a um crescente interesse no ocultismo, sendo o mais erudito The Magicians of the Golden Dawn (1972) de Ellie Howe. Mais popular em estilo é Ritual Magic in England (1970) de Francis X. King que também apresenta novo

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material, assim como seu Astral Projection, Magic and Alchemy (1971), embora pouco preocupado com o próprio Mathers.

Parece que os Chefes Secretos decidiram divulgar o mínimo possível a biografia de Mathers, independentemente do que seus colegas iniciados pudessem ou não divulgar. Só posso fazer este esboço de sua vida o mais factual possível, dadas as condições. Assim como Arthur Rimbaud, Engelbert Humperdinck — o original — Sir Edward Carson e James George (The Golden Bough) Frazer, Mathers nasceu no ano de 1854. O mesmo ano viu o início da Guerra da Crimeia, com as batalhas de Alma, Balaclava e Inkerman — e a obra de Tennyson, The Charge of the Light Brigade. Pio Nono, falando ex cathedra na Carta Apostólica Ineffabilis Deus, definiu a Imaculada Conceição da Virgem como um dogma da Igreja e o Cheltenham Ladies' College foi inaugurado como uma escola pública para meninas. O Römische Gesichte de Mommsen e o primeiro volume do Dicionário Alemão de Grimm apareceram enquanto Mistral estava começando uma sociedade para o renascimento da cultura provençal. Georg F. B. Riemann desenvolveu suas teorias não euclidianas em As Hipóteses formando a Fundação da Geometria, o Working Men's College foi fundado em Londres e o University College em Dublin. Sir Richard Burton explorou o interior da Somalilândia, Taylor escavou o assentamento sumério em Ur dos Caldeus e o Barão Haussmann começou a eliminação da Paris "atmosférica". Uma Igreja Apostólica Católica projetada em estilo neo-gótico por J. R. Bradon foi concluída em Gordon Square, Bloomsbury.

Em relação a outras artes, na música foi o ano de Mazeppa de Liszt e a tentativa de suicídio de Schumann. Enquanto Wagner estava trabalhando no ciclo do Anel, na Inglaterra, os primeiros Music Halls estavam se tornando populares: era o auge da música impressa com capas coloridas representando Champagne Charlie e artistas com bigodes Dundreary. Na pintura, viu-se Bonjour, Monsieur Courbet, Os Ceifeiros de Millet e Ramsgate Sands de William Firth; uma grande pintura apocalíptica, O Banquete de Belsazar, de John Martin, foi danificada em um acidente ferroviário em um cruzamento de nível. Na literatura, Les Filles du Feu de Gérard de Nerval, Walden de Thoreau, The Angel in the House de Coventry Patmore, Westward Ho! de Kingsley e Hard Times de Dickens foram todos publicados. O exilado político, Gabriel Rossetti, pai de Christina e Dante Gabriel, morreu em

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Londres; Eliphas Lévi (Alphonse Louis Constant) em meio a uma evocação cerimonial na casa de Bulwer-Lytton em Londres evocou um fantasma de Apolônio de Tiana. Em um mundo assim não casualmente vinculado, chegou Samuel Liddell Mathers.

Para ambientar suas atividades, agora listo os lugares onde Mathers viveu por períodos mais longos ou mais curtos; localizações duvidosas são indicadas por colocação entre colchetes:

NASCEU, 1854 11, De Beauvoir Place, West Hackney agora 108, De Beauvoir Road, Londres, N.1
1866-70 Bedford Grammar School, Bedford — agora Bedford School (Possível local de estudo)
1870-8 Região de Bournemouth (Possível local de residência)
1878 Yelverton Road, Bournemouth; casa desde então demolida (Possível local de residência)
c. 1878-85 ‘Dunvegan’, Longfleet, Dorsetshire — agora 6, Longfleet Road, Poole
1885-90 Great Percy Street, Kings Cross, Londres
CASAMENTO, 1890 Museum Lodge, London Road, Forest Hill, Kent e Stent Lodge, Forest Hill — agora S.E.23
1891 Percy Street, Tottenham Court Road, Londres, W.i
1892 79, Rue Miromesnil, Paris, 8°
1892 121, Boulevard St. Michel, Paris, 6°
1893 I, Avenue Duquesne, Champ-de-Mars, Paris, 7°
1895 87, Rue Mozart, Auteuil, Paris — agora Avenue Mozart, Paris, 16°
c. 1899 28, Rue St. Vincent, Montmartre, Paris, 18°
c. 1904 4, Rue de la Source, Paris, 16°
1907 Aux Gressets, par La Celle-Saint-Cloud (S. et O.)
c. 1910-12 Londres (provavelmente distrito W.6.)
c. 1913 Saint-Cloud (S. et O.)
c. 1914 Paris (distrito de Montmartre)
MORTE, 1918 43, Rue Ribéra, Paris, 16°

Dia 8 de Janeiro, o aniversário de Mathers, ocorrendo no segundo decanato (governado por Marte) do signo de Capricórnio (mansão de Saturno), seu mapa astral combinou as influências primárias dos Malefícios Menores e Maiores. Os astrólogos podem encontrar nisso uma indicação de suas futuras lutas com o destino. Reproduzo uma cópia de seu horóscopo por Paul Henderson, o astrólogo esotérico, tomando o tempo do Sol no nascimento como 11°/16". A oposição entre Netuno e Marte do meio-céu imediatamente chama a atenção; também a Lua e outros planetas em Touro, o signo do Sol de Moina. Em uma carta escrita um ou dois anos antes de sua morte, Annie Horniman disse ao Dr. Edwards que quando ela conheceu Mathers pela primeira vez, ele se dizia um Aquariano do Sol; ela acrescenta que ele 'parecia um aquariano, sendo magro e escuro'. Quando depois ele se tornou obcecado com assuntos marciais (para desaprovação dela), ele se declarou um Ariano do Sol e 'ajustou' o horóscopo de sua esposa neste sentido para combinar com o dele. Annie escreveu até mesmo nesta data tardia com alguma acidez quando Mathers era seu assunto, então suas observações devem ser aceitas com cautela. Crowley comentou astutamente em anos posteriores: 'Os problemas de Mathers foram devido à sua excessiva devoção a Marte', e o próprio Mathers diz de seu próprio Decan: '... simboliza A e Ώ; ele mata tão rápido quanto cria'.

Os pais de Mathers moravam em 11, De Beauvoir Place, West Hackney; a casa sobrevive hoje como 108, De Beauvoir Road, Londres, N.i. A certidão de nascimento deles dá seus nomes como William Mathers, escriturário de comerciante, e Mary Ann Mathers, anteriormente Collins; esses nomes aparecem novamente na certidão de óbito da Sra. Mathers de 1885. Nos certificados tanto de casamento de Mathers (1890) quanto de morte (1918), o nome de seu pai é dado como William MacGregor Mathers. Até onde eu posso determinar, Mathers era filho único: em qualquer caso, ele provavelmente foi o filho mais novo de sua mãe, pois ela tinha trinta e nove anos no

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momento de seu nascimento. Ela era inglesa, mas Annie concede que, MacGregor ou não, seu pai era de ascendência escocesa — baixa escocesa, segundo Crowley. Mathers mais tarde reivindicou sangue das Terras Altas, sustentando que seu sobrenome era um dos muitos adotados por diferentes ramos do Clã MacGregor na época de sua dispersão e da proibição de seu nome em 1604. Não aparece em uma ou duas listas de tais nomes que consultei, mas essas podem não ser exaustivas. É estranho que Mathers não fez nenhuma referência ao seu nome do meio, embora a família Liddell seja tão escocesa quanto a dos Mathers e possa até se vangloriar de um ramo armígero.

O general Fuller, em The Temple of Solomon the King, chama Mathers de "um homem de Hampshire" sem aduzir nenhuma evidência, mas presumivelmente por causa de sua residência na área de Bournemouth. Ellie Howe sugere uma origem de Midlands em Warwickshire; também há uma conexão com Bedfordshire.

O registro da igreja paroquial de St. Peter, que fica aproximadamente na metade do caminho de De Beauvoir Road e foi construída no estilo gótico vago do final dos anos 1840, registra o batismo de Mathers em 8 de fevereiro de 1854; isso e seu certificado de casamento provam que, qualquer que tenha se tornado mais tarde, ele começou a vida oficialmente como anglicano.

De Beauvoir Road, que deve ter sido agradavelmente, se modestamente, residencial, hoje apresenta um ar decadente. Sofreu durante o blitz de Londres; as lacunas desde então foram preenchidas por 'pré-fabricados' e pequenas fábricas, enquanto blocos de apartamentos altos e sem caráter invadiram sua extremidade sul. Na extremidade norte fica uma grande e feia escola com departamentos marcados como Infantil, Júnior e Educação de Adultos — talvez o primeiro seminário de Mathers? (Pode ser pertinente lembrar que a educação não era obrigatória nos bairros de Londres até 1870, e mesmo assim havia muitas brechas na lei.) De Beauvoir Town ainda retém alguma atmosfera de respeitabilidade pacífica com casas construídas por volta de 1835 em pares semi-destacados ou pequenas fileiras. A maioria tem apenas dois andares, alguns também têm um semi-subsolo e em alguns o cômodo do térreo tem janelas francesas ladeadas por vidros coloridos vitorianos, âmbar ou malva, que dão para o jardim; alguns até têm pórticos ladeados por colunas jônicas. A casa que agora é numerada como 108 é a do meio de uma fileira de três, situada no lado leste, perto da extremidade norte da estrada. Beirais projetados devem escurecer os quartos da frente

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dos andares superiores; acácias crescem em um dos jardins da frente, proféticas das ligações maçônicas de Mathers. O número 108 parece estar espremido entre seus vizinhos que são um pouco maiores e ocupam um terreno maior. Consiste em um semi-subsolo — realmente no nível do solo — então um primeiro andar acessado por um lance de dez degraus com balaustrada, e um andar de quarto acima. Existem janelas de guilhotina; na frente, um pequeno jardim com um portão e na parte de trás um lote um pouco maior. Esta fileira parece particularmente mal cuidada, as lixeiras que transbordam para os jardins sugerem ocupação múltipla. Uma programação para o re-desenvolvimento explicaria o ar de negligência nesta rua, contrastando com o da Culford Road, a próxima paralela a ela. Aqui, a maioria das casas, embora não mais distintas arquitetonicamente do que aquelas de De Beauvoir, foram reformadas e decoradas por pessoas de bom gosto. Um grupo de preservação de De Beauvoir surgiu e resiste a esquemas de demolição; a área, como uma extensão de Islington, é até procurada por aqueles que precisam de uma casa pequena não muito longe do centro de Londres.

Qualquer autor que mencione a educação de Mathers dirá que ele foi enviado para a Bedford Grammar School, mas não dirá por que, nem como. O pai de Mathers morreu quando ele era muito jovem, e sua mãe viúva o tirou de Londres e se estabeleceu, não em Bedford, mas na área de Bournemouth. Bedford Grammar era então principalmente uma escola diurna projetada para fornecer educação para meninos da região circundante; mesmo agora, como Bedford School, ela tem uma ligeira predominância de alunos diurnos sobre internos. Se Mathers foi para lá como interno, como sua mãe pagou as mensalidades? Alguém mais as pagou e, se sim, quem foi? É pelo menos interessante que na época relevante havia uma família Mathers vivendo em Bedford com vários filhos, incluindo um William e um Samuel, também nascido em 1854 e apenas três meses mais jovem que Samuel Liddell. Foi este o menino que foi educado em sua escola local, Samuel Liddell sendo ensinado em outro lugar? Não na Escola de Bournemouth, que só foi fundada em 1901; também se pode descartar outra escola em Bedford que não existia em 1866 quando Mathers supostamente entrou.

Seria uma estranha coincidência se dois meninos de mesmo nome e idade estivessem sendo educados pela Bedford Grammar ao mesmo tempo, e na verdade apenas um aparece em suas listas de classe.Esses registros contêm apenas sobrenomes; de acordo com eles, 'Mathers' (qualquer que seja) frequentou

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do Período de Natal de 1866 até o Período de Meio do Verão de 1870 — isto é, quando tinha entre doze e dezesseis anos. Ele deixou a divisão sênior da turma do Segundo Mestre, a próxima abaixo do Diretor, e sua colocação no último ano foi décima oitava de 20 meninos. Ele alcançou a décima sétima na prova de verão e a posição do último ano nas matérias estudadas foi a seguinte:

Divindade e Clássicos 18
Matemática 19
Inglês e Aritmética 14
Francês 12

Isso sugere uma média justa, mas sem brilhantismo: se se aplica a Samuel Liddell, o currículo seguido não indica a "especialização do lado Clássico" do Prefácio de Moina. Ele deve ter feito alguns estudos concentrados durante os próximos quinze anos para se equipar para o trabalho que então empreendeu, o que exigia um bom conhecimento de francês, latim e grego e pelo menos algum conhecimento de hebraico e copta.

Os Registros Escolares estão incompletos e não cobrem os anos relevantes, o que é uma pena, pois fornecem não apenas a data de nascimento do aluno, mas o nome e o endereço de seus pais. Nenhum registro de educação física foi mantido antes de 1876, então a gente se pergunta onde Joseph Hone (W. B. Yeats, 1865-1939) descobriu que Mathers se destacou no atletismo enquanto era estudante, particularmente em corrida e boxe? Hone seguiu o Prefácio de Moina ao identificar a escola como Bedford Grammar; escritores posteriores fizeram o mesmo, e com a mesma escassez de evidências. Moina fez a mesma declaração em uma carta a Yeats de 1924, cerca de dois anos antes do Prefácio ser publicado.

Posso apenas sugerir que o nome Samuel era um favorito no Clã Mathers, que o Samuel de Bedford era primo de Samuel Liddell e que 'S. L.' portanto, teria conhecido alguns dos detalhes educacionais anteriores. Ele os adotou como seus na vida posterior, tanto quanto adotou o nome de MacGregor, supondo que suas declarações seriam difíceis de refutar? Ele até assumiu a personalidade de um primo, seu homônimo cujo horóscopo era mais marcial, tendo o Sol em Áries? Talvez tenha sido o tipo de educação que em algum período ele teria associado a si mesmo; se o

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vemos como uma personalidade ambiciosa com um passado "desfavorecido", a ideia parece plausível. Eu coloco isso em evidência, não para desacreditar Mathers, mas para apontar um problema: ele conseguiu adquirir uma boa educação em algum lugar, mas onde, ainda está longe de ser certo. Mesmo admitindo que, como muitas pessoas de mente independente, ele foi principalmente autodidata e sua única universidade foi a Sala de Leitura do Museu Britânico, ele deve ter se preparado intensivamente ou ter sido tão preparado durante sua adolescência tardia e início da idade adulta, ou a Biblioteca do Museu Britânico teria sido de pouca utilidade para ele.

Depois que Mathers deixou a Bedford Grammar School (sempre supondo que ele foi lá) ele se estabeleceu com sua mãe nos arredores de Bournemouth e seguiu a ocupação mundana de seu pai como escrivão. Moina diz que ele "levava uma vida de estudante" e sem dúvida ele fazia isso, em seu tempo livre. Mas outros interesses, mais exotéricos, também invadiram, por exemplo, a Maçonaria e o serviço militar. A próxima data definitivamente conhecida em sua vida — na verdade, a única desde seu batismo — é 4 de outubro de 1877, quando ele se tornou um Maçom aos vinte e três anos. Sua iniciação em Bournemouth na Loja de Hengist, No. 195, foi patrocinada por E. W. Rebbeck, um conhecido agente imobiliário local em cujo negócio ele provavelmente estava empregado na época. Ele avançou pelos três Graus Regulares — Aprendiz Ingressado, Companheiro Artesão e Mestre Maçom, obtendo seu certificado para o último cerca de dezoito meses após a iniciação. Neste documento, seu nome é seguido por "Comte de Glenstrae", seu primeiro uso registrado do título. Detalhes sobre sua entrada na Maçonaria podem ser encontrados em The History of the Lodge of Hengist (1897) por C. J. Whitting, que observa que "Mathers desde então se tornou uma luz brilhante nos círculos Rosacruzes" e foi uma notável adição à lista de membros. Como Mathers não renunciou a Hengist até 1882, ele teria, no curso normal de promoção, tido tempo para passar pela Cadeira, isto é, para cumprir o papel sucessivamente de todos os Oficiais na Loja e assim se tornar seu Mestre. No entanto, Dr. William Wynn Westcott, a quem ele conheceu no ano anterior, afirma que ele nunca o fez. Ele apenas alcançou o grau de Diácono Júnior, mas foi (surpreendentemente) nomeado Diretor de Cerimônias. Ele apresentou um pedido para a fundação de uma Loja de Instrução. Ousamos sugerir que ele achou os rituais da Maçonaria decepcionantes ou pelo menos insuficientemente esotéricos para seu propósito, e

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a maioria de seus irmãos chatos? Não há registro de ele ter ingressado em qualquer outra Loja Maçônica.

No entanto, antes de renunciar, ele propôs Frederick Holland, um metalurgista de interesses ocultistas (incluindo alquimia) então residente na área de Bournemouth, que, de acordo com Ellie Howe, "deu a Mathers sua primeira instrução na Cabala... Dr. Wynn Westcott e Dr. William Woodman, ambos maçons de alto escalão residentes em Londres, visitaram Bournemouth para participar das funções da Fraternidade lá. Eles o introduziram na Societas Rosicruciana in Anglia (= Sociedade Rosacruz na Inglaterra) — conhecida familiarmente como Soc. Ros. — uma associação erudita e cerimonial aberta apenas para Mestres Maçons. Ao ser eleito na Província Ocidental do S.R.I.A., Mathers tomou como seu nome o lema do Clã MacGregor, ´S Rioghail Mo Dhream (= 'Real é minha raça'), outra indicação de suas primeiras reivindicações de ascendência Highland. Westcott, uma luz guia no S.R.I.A., foi rápido em notar o potencial de Mathers, incentivar seus estudos reconditos e promover seu progresso nos aspectos transcendentais da Maçonaria. Ele pode muito bem ter dado ao seu protegido um gosto ocasional da vida maçônica de Londres, convidando-o para ficar. Mathers era muito mais feliz na Soc. Ros. do que na Maçonaria; rapidamente subindo sua escada de graus ele logo alcançou o IXo e se juntou ao triângulo governante. Ele permaneceu ativo na associação até bem entrado no século seguinte, pelo menos. Considerando seus gostos, se esperaria que ele também gravitasse para a Loja de pesquisa, Quatuor Coronati, mas, enquanto ele pode ter participado de seu Círculo de Correspondência, ele nunca foi um membro pleno.

Embora o primeiro certificado de iniciação de Mathers o descrevesse como escrivão, não há como saber quão continuamente ele foi empregado nessa capacidade. Talvez tenha sido apenas por curtos períodos e em longos intervalos, quando ele foi absolutamente obrigado a ganhar. O fato de que, na vida posterior, ele nunca foi empregado continuamente e lucrativamente por mais que alguns meses juntos sugere que o hábito de tal esforço constante não foi estabelecido antes. Não que ele fosse ocioso: ele trabalhava com a indústria de um castor no que lhe interessava, e se pergunta como ele poderia manter um emprego quando, além de seus compromissos maçônicos, sua atenção deve ter sido focada no estudo e autodesenvolvimento que ele acreditava serem necessários para seu futuro trabalho oculto.

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Mathers também ingressou no Primeiro Infantaria de Voluntários de Hampshire e se empenhou tanto que logo foi capaz de traduzir um manual militar do francês e adaptá-lo às necessidades do Exército Britânico. Os Regimentos da Milícia foram os precursores do Exército Territorial, e seu treinamento ofereceu uma saída muito necessária para a energia física característica de um homem de seu tipo atlético. Mesmo na meia-idade, ele parecia bem em um kilt e gostava de realizar uma dança da espada, como Yeats atesta. Seu organismo psicofísico deve ter sido forte no Centro de Movimento, para usar uma frase de Gurdjeff. As atividades dos Voluntários contrabalançavam suas ocupações sedentárias e lhe proporcionavam o exercício ao ar livre e o desenvolvimento muscular que os esportes de campo além de seus meios teriam proporcionado aos mais ricos.

Quando Yeats o conheceu na década de 1890, ele reconheceu a paixão dominante da vida de Mathers como "magia e a teoria da guerra". Se, como Crowley amplifica, ele também "tinha o hábito de comandar", ele deve ter adquirido isso como um N.C.O., já que seu nome não aparece na lista de oficiais comissionados de seu regimento. Embora ele esteja usando o uniforme de um tenente na fotografia de c. 1882 descoberta por Ellie Howe, não é, portanto, necessário imputar fraude. Ele pode ter alugado a fantasia para uma festa a fantasia e gostou tanto de si mesmo que fez seu retrato depois. Novamente, ele pode ter estado realizando um desses rituais instintivos desenvolvidos na infância quando ele faria uma imagem do que ele queria para concretizá-la — só que desta vez era uma representação em 3D, drama em vez de desenho; um fantoche vivendo manifestando um sonho: "constrangido, acusado, frustrado, dobrado e desdobrado". Se a vaidade era um elemento em sua vida de fantasia, uma vontade de enganar não era uma. A celebração do poderio militar que persistiu em seus devaneios juvenis nunca o deixou completamente.

Mathers apresenta, nesta época, um exemplo clássico de um jovem fixado na mãe mergulhando em atividades que, sendo totalmente orientadas para o masculino, criariam uma barreira impalpável entre ele e as mulheres de sua própria idade. Sua viúva o descreveu como "um tempo de reclusão no campo" — Bournemouth e seus arredores ainda eram bastante rurais na segunda metade do século passado, então não há necessidade de procurar mais do que a casa de sua mãe para um retiro no campo, com talvez uma visita ocasional à Nova Floresta ou à Ilha de Wight.

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Eles ocuparam 'Dunvegan' — certamente ele escolheu o nome! — Longfleet, uma vila vitoriana-gótica de três andares de bom tamanho e alguma pretensão. Sobrevive como 6, Longfleet Road, Poole, na esquina com Elizabeth Road, a vila de Longfleet tendo sido há muito engolida pelo desenvolvimento suburbano. No. 6 estava à venda em julho de 1973; embora não tão grande quanto parece na fotografia — compartilhando uma parede de festa na parte de trás com 4, Longfleet Road — parece espaçoso para duas pessoas em circunstâncias apertadas. Poderia se supor que a Sra. Mathers alugou a propriedade de seus então proprietários e sublocou alguns dos quartos como apartamentos, se o nome dela tivesse ocorrido entre os 'principais residentes' da área no Kelly's Directory de 1885. Mas não ocorre, embora haja um registro de uma Sra. Ann Mathers, que pode ter sido a mesma pessoa, alugando apartamentos em Yelverton Road por um curto período em 1876. Caso contrário, mãe e filho devem ter ocupado um casal de quartos em 'Dunvegan', administrado como uma casa de apartamentos por outra pessoa. O arranjo terminou com a morte da Sra. Mathers aos setenta anos de bronquite e pneumonia em 27 de janeiro de 1885 — 'na presença de seu filho', conforme o certificado afirma. Como não foi registrado nenhum testamento, presumivelmente ela não deixou nenhum ativo: Mathers certamente herdou pouco ou nada dela. Ele se mudou para Londres sem demora, reconhecendo que a primeira fase de sua vida estava encerrada, embora ainda possa ter considerado 'Dunvegan' como um pied à terre de alguma forma, já que a segunda edição de seu manual militar é datada de 'Bournemouth, 1889'.




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CAPITULO SETE

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Uma Espada: Fato (2)

Foi principalmente ao Dr. Wynn Westcott que Mathers devia a possibilidade de começar sua missão oculta em Londres, embora o homem mais velho não tivesse ideia das responsabilidades que estava assumindo. Devido ao seu encorajamento e ajuda financeira, Mathers fez a primeira tradução inglesa do Kabbalah Denudata de Knorr von Rosenroth. O Dr. Woodman juntou-se a Westcott em encomendar este trabalho, e juntos eles lhe pagaram um salário, mesmo que pequeno. Eles próprios não eram homens ricos, mas reconhecendo suas habilidades especiais, fizeram o melhor que puderam para subsidiá-lo. Além disso, Westcott providenciou um teto sobre sua cabeça: comentando, em um resumo da vida de Mathers citado por Ellie Howe, sobre o estado penúrio de seu protegido, ele diz que ele viveu

'. . . em modestas hospedagens na Great Percy Street, Kings Cross, onde desfrutou da hospitalidade de Westcott por muitos anos.' Era costume de Westcott escrever sobre si mesmo na terceira pessoa. Em 1885, ele já se tornara o legista do norte de Londres e estava instalado em 369 - de maneira mais grandiosa, Athenaeum Lodge - Camden Road, N., então sua hospitalidade não precisa implicar nada mais íntimo do que pagar o aluguel dos alojamentos de Mathers.

Mathers ainda estava muito pobre quando Yeats o conheceu alguns anos depois: às vezes ele estava tão fraco de desnutrição que não conseguia dar ao seu habitual parceiro de combate uma luta digna. O Dr. Edwards acha que por um tempo ele foi um boxeador profissional: no seu melhor, ele teria sido um adversário formidável e pode muito bem ter ganhado uma taxa ocasional por lutas e demonstrações. O boxe e a esgrima eram um meio mais ou menos inofensivo de extravasar suas tendências agressivas, mas o principal objetivo desses exercícios era se manter em forma. Ele sempre insistiu que um ocultista deveria manter-se

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em boa forma física, mas havia dias em que uma refeição completa teria servido melhor ao propósito do que uma atividade extenuante.



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  1. Este templo não era o de Rei Salomão, embora a fraternidade originalmente tivesse afiliações maçônicas, mas provavelmente comemorava o templo hindu onde seu fundador, Karl Kellner, estudou os elementos do Tantrismo.
  2. golpe de relâmpago
  3. alojamento
  4. Sociedade Teosófica